Hamas deixa o governo, mas não larga as armas

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Grupo entrega a gestão civil, mantém as armas e levanta suspeita de manobra política.

O Hamas anunciou que deixará a administração civil de Gaza. Mas a decisão não responde à pergunta mais importante: quem controlará as armas, a polícia e o território?

Enquanto o grupo palestino apresenta a medida como um passo para a paz e a reconstrução, Israel denuncia uma troca de fachada. Washington, por sua vez, adotou uma posição direta: o movimento será julgado por ações concretas, não por promessas.

O que o Hamas realmente dissolveu?

Na segunda-feira, 6 de julho, o Hamas anunciou o fim do chamado Comitê Governamental de Emergência, estrutura que supervisionava ministérios e serviços públicos na Faixa de Gaza.

O anúncio foi feito por Ismail al-Thawabta, diretor do Gabinete de Mídia do governo administrado pelo Hamas, durante uma entrevista coletiva no Hospital Al-Aqsa, em Deir al-Balah.

O presidente interino do comitê, Mohammed al-Farra, apresentou sua renúncia. Segundo o comunicado, funcionários técnicos e profissionais permanecerão trabalhando para evitar o colapso dos serviços básicos durante a transição.

O Hamas controla politicamente Gaza desde 2007, quando assumiu o território após um confronto com o Fatah, rival que domina a Autoridade Palestina. Agora, quase duas décadas depois, o grupo afirma estar disposto a sair da gestão cotidiana.

Quem deveria assumir o governo de Gaza?

A administração civil deverá ser transferida ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, conhecido pela sigla em inglês NCAG.

O órgão é formado por aproximadamente 15 tecnocratas palestinos e comandado por Ali Shaath, engenheiro nascido em Gaza e ex-integrante da Autoridade Palestina.

Com sede provisória no Cairo, o comitê teria como funções:

restaurar serviços públicos;
coordenar ajuda humanitária;
administrar os ministérios;
preparar a reconstrução do território;
assumir progressivamente a gestão civil.

O grupo funcionaria sob supervisão internacional, incluindo a ONU e o chamado Conselho de Paz, estrutura liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Entretanto, até agora, o comitê não conseguiu entrar efetivamente na Faixa de Gaza.

A grande contradição: o Hamas continuará armado

Aqui está o ponto que muda toda a leitura do anúncio.

Apesar de dissolver o órgão administrativo, o Hamas não anunciou a entrega de suas armas nem a transferência imediata do controle da segurança.

Segundo a Reuters, o grupo pretende continuar supervisionando o policiamento e a segurança nas regiões de Gaza que permanecem sob sua influência. Ministérios e parte dos servidores indicados pelo Hamas também continuarão trabalhando.

Em outras palavras: o Hamas pode deixar de administrar escolas, hospitais, salários e serviços públicos, mas ainda conservar o poder coercitivo sobre o território.

Essa separação entre governo civil e força armada é justamente o motivo da desconfiança israelense.

Israel acusa Hamas de tentar copiar o “modelo Hezbollah”

O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, classificou o anúncio como uma manobra destinada a evitar o desarmamento.

Na avaliação de Saar, uma administração tecnocrática poderia cuidar dos serviços públicos, enquanto o Hamas permaneceria como força militar dominante — um modelo semelhante ao papel exercido pelo Hezbollah no Líbano.

Para o governo israelense, não haverá mudança real enquanto o grupo mantiver armas, forças de segurança e capacidade de pressionar as futuras autoridades civis.

O Conselho de Paz ligado ao plano americano também demonstrou cautela. A entidade afirmou que sua avaliação será baseada em “ações, não promessas” e defendeu que todas as armas em Gaza fiquem subordinadas a uma única autoridade.

O que diz o Hamas?

O Hamas afirma que a dissolução demonstra seriedade no cumprimento dos acordos e facilita a transição administrativa.

O porta-voz Hazem Qassem declarou que o grupo está preparado para entregar responsabilidades governamentais ao novo comitê, alegando que a mudança retiraria justificativas para a continuidade das operações israelenses.

A organização, porém, sustenta que não discutirá plenamente o desarmamento enquanto Israel não cumprir etapas anteriores do acordo, incluindo a suspensão das operações militares, a ampliação da ajuda humanitária e a retirada de tropas.

Israel argumenta justamente o contrário: não pretende realizar uma retirada mais ampla enquanto o Hamas continuar armado.

Esse impasse criou um círculo político e militar difícil de romper.

Por que o anúncio aconteceu agora?

O cessar-fogo negociado pelos Estados Unidos entrou em vigor em outubro de 2025. A primeira fase envolvia interrupção dos combates, libertação de reféns, soltura de prisioneiros palestinos e retirada parcial das forças israelenses.

Em janeiro de 2026, Washington anunciou o início da segunda fase, que deveria incluir:

governo palestino tecnocrático;
desmilitarização de Gaza;
força internacional de estabilização;
retirada gradual de Israel;
reconstrução do território.

Meses depois, grande parte desse plano continua paralisada. O comitê tecnocrático permanece no Egito, o Hamas segue armado e Israel mantém tropas em mais de 60% da Faixa de Gaza.

Ao anunciar formalmente sua saída do governo civil, o Hamas tenta transferir a pressão política para Israel e para os Estados Unidos: se o grupo diz estar pronto para entregar a administração, por que o novo comitê ainda não entrou em Gaza?

Analistas ouvidos por veículos internacionais avaliam que a decisão também pode ser uma tentativa de destravar recursos para reconstrução sem que o Hamas aceite, neste momento, entregar seu poder militar.

O que muda imediatamente para os moradores?

Na prática, muito pouco — pelo menos por enquanto.

O comitê de Ali Shaath ainda não possui estrutura operacional dentro de Gaza. Não controla ministérios, polícia, fronteiras, receitas públicas ou distribuição de ajuda.

Ao mesmo tempo:

Israel mantém o controle militar da maior parte do território;
o Hamas conserva influência nas áreas restantes;
funcionários ligados à antiga administração continuam trabalhando;
os mecanismos de segurança ainda não foram transferidos;
a reconstrução em larga escala permanece bloqueada.

Portanto, a dissolução representa uma mudança política importante, mas ainda não uma transferência comprovada de poder.

O custo humano por trás da disputa

A guerra começou após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas e levou 251 reféns para Gaza.

A ofensiva israelense posterior deixou grande parte do território destruída. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, mais de 73 mil palestinos morreram desde o início do conflito. O órgão não separa civis de combatentes em seus números, embora seus registros sejam utilizados por agências da ONU e especialistas independentes.

Mesmo após o cessar-fogo de outubro de 2025, ataques israelenses e ações de grupos armados continuaram sendo registrados.

Transição histórica ou apenas troca de fachada?

O anúncio pode se transformar em um dos movimentos políticos mais importantes de Gaza desde 2007. Mas isso dependerá do que acontecer fora das entrevistas coletivas.

Para que a transição seja considerada real, será necessário:

permitir a entrada do comitê tecnocrático em Gaza;
transferir ministérios, orçamento e serviços públicos;
estabelecer uma autoridade única sobre polícia e segurança;
definir o futuro das armas do Hamas;
criar um calendário verificável para retirada israelense;
iniciar a reconstrução com fiscalização internacional.

Sem esses elementos, o risco é evidente: um novo governo pode assumir as responsabilidades civis enquanto o antigo grupo mantém o poder armado nos bastidores.

A dissolução administrativa é um fato. A saída efetiva do Hamas do poder ainda precisa ser provada.


Na sua opinião, o Hamas está realmente deixando o poder ou apenas transferindo os problemas civis enquanto preserva sua força armada? Comente, compartilhe esta análise e acompanhe o PodemFoco News para entender os movimentos que podem redesenhar o futuro do Oriente Médio.

Fontes: Reuters; Associated Press; CNN Brasil; Diário 360; Financial Times; Council on Foreign Relations; House of Commons Library; Gazeta do Povo; Euronews e Al Jazeera.

Da Redação.

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