Rede usou rosto de especialista para espalhar falsas curas e lucrar com o medo da terceira idade.
O rosto era verdadeiro. A autoridade médica também. Mas a voz, os conselhos e as supostas curas divulgadas nos vídeos eram uma fabricação digital.
O médico otorrinolaringologista e especialista em medicina do sono Hélio Brasileiro descobriu que sua imagem havia sido clonada por inteligência artificial e usada, sem autorização, em canais do YouTube voltados principalmente ao público idoso.
Ao menos cinco canais utilizaram o rosto do especialista para publicar conteúdos alarmistas sobre medicamentos, alimentação, doenças cardíacas e tratamentos “naturais”. A investigação encontrou indícios de uma operação organizada para produzir vídeos em escala, conquistar visualizações e transformar a confiança das pessoas em dinheiro.
A pergunta que fica é inquietante: quantas pessoas podem estar seguindo orientações médicas dadas por alguém que nunca gravou aquele vídeo?
A voz parecia dele, mas o médico nunca disse aquilo
Hélio Brasileiro mantém um canal verdadeiro no YouTube, com aproximadamente 270 mil inscritos e quase 700 vídeos.
O trabalho começou há cerca de 14 anos, inicialmente com informações sobre medicina do sono. Durante a pandemia, ele retomou a produção de conteúdo para combater boatos relacionados à saúde e às vacinas.
A ironia é brutal: o médico que defendia uma “informação médica sem fake” acabou transformado, pela própria tecnologia, em personagem involuntário de uma rede de desinformação.
Segundo a apuração, os clones digitais apareciam fazendo alertas exagerados, condenando alimentos, relacionando hábitos cotidianos a doenças graves e sugerindo alternativas naturais que poderiam substituir medicamentos prescritos.
Em um cenário hipotético apresentado pelo próprio médico, um idoso hipertenso poderia assistir ao clone afirmando que seu remédio prejudica os rins e que um simples suco seria mais saudável.
O perigo não está apenas na mentira. Está na aparência de legitimidade.
Uma fábrica digital de falsos especialistas
A investigação encontrou conteúdos praticamente idênticos publicados em diferentes canais.
Em 22 de maio, a página chamada Dr. Hélio – Informações Médicas publicou um vídeo sobre quatro tipos de queijo que supostamente poderiam “destruir” a saúde de pessoas com mais de 60 anos.
No dia seguinte, o canal Dr. André Tavares publicou conteúdo semelhante. Pouco depois, o mesmo roteiro apareceu nas páginas Dr. Helio Consejos de Salud, Dra. Aline Vitta e Dr. Hélio Saúde em Foco.
A repetição de títulos, roteiros e datas de publicação indica uma estratégia de produção em série. Pelo menos 20 canais apresentaram esse padrão no levantamento relacionado ao caso de Hélio Brasileiro.
Uma pesquisa da organização CTRL+Z identificou 29 canais em português dedicados a conteúdos de saúde apresentados por médicos artificiais. Juntos, eles ultrapassaram 70 milhões de visualizações.
A produção chegaria a aproximadamente dez vídeos por dia, com cerca de 267 mil visualizações diárias. O lucro pode vir de anúncios, venda de e-books, guias de saúde, produtos e direcionamento para páginas externas.
Não se trata mais de um vídeo isolado feito como brincadeira.
É um modelo de negócio baseado na fabricação de autoridade.
Por que os idosos se tornaram o principal alvo?
O público da terceira idade costuma pesquisar temas como memória, pressão arterial, visão, diabetes, dores, próstata, Alzheimer e qualidade do sono.
Esses assuntos mexem com medos reais: perder a independência, ficar doente, depender da família ou enfrentar tratamentos caros.
Os produtores dos canais exploram exatamente essas preocupações. Usam jalecos, cenários de consultório, vozes tranquilas, palavras técnicas e títulos que criam urgência:
“Não coma isso depois dos 60.”
“Este hábito pode estar destruindo seu coração.”
“Pare de tomar este remédio antes que seja tarde.”
O conteúdo mistura informações genéricas, meias-verdades e afirmações sem comprovação. Essa combinação torna o golpe mais convincente do que uma mentira absurda.
Um dos casos localizados pela investigação envolveu Celi Ferreira, de 82 anos. Ela comentou em um vídeo sobre catarata acreditando estar diante de um médico verdadeiro. A publicação, apresentada por um avatar de IA, aproximou-se de 300 mil visualizações.
A BBC analisou cerca de 27 mil comentários e encontrou relatos atribuídos a idosos que disseram ter iniciado receitas caseiras ou interrompido medicamentos prescritos após assistir aos vídeos.
Caso chegou à Polícia Civil de Sorocaba
Após descobrir a clonagem, Hélio Brasileiro denunciou os vídeos ao YouTube e registrou um boletim de ocorrência.
O caso foi encaminhado ao 3º Distrito Policial de Sorocaba, no interior de São Paulo.
A delegada Alessandra Silveira apontou, no despacho citado pela reportagem, riscos de automedicação, envenenamento e danos à reputação do profissional. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que diligências estavam sendo realizadas para identificar os responsáveis.
A investigação analisa possíveis crimes relacionados a falsa identidade, falsidade ideológica, difamação e outros delitos digitais. Especialistas ouvidos pela reportagem também apontam que a atuação de um falso médico prescrevendo tratamentos pode configurar exercício ilegal da medicina.
É importante fazer uma distinção: a reportagem não apresenta uma morte comprovadamente provocada pelos vídeos. O médico alerta para o potencial fatal de uma pessoa abandonar tratamento, substituir medicamentos ou seguir recomendações inadequadas.

Não é um problema apenas brasileiro
O uso de médicos falsos ou clonados já foi identificado em vários países.
Nos Estados Unidos, o médico Joel Bervell, conhecido por combater mitos médicos nas redes, descobriu que sua imagem havia sido usada para promover um produto que ele nunca recomendou.
Uma investigação da CBS News encontrou mais de 100 vídeos e dezenas de contas utilizando médicos inventados ou identidades de profissionais reais. Alguns produtos eram anunciados com alegações exageradas de emagrecimento, beleza e bem-estar.
No Reino Unido, médicos e especialistas como David Taylor-Robinson e Duncan Selbie tiveram falas, imagens e vozes manipuladas para promover suplementos. Uma investigação da Full Fact encontrou centenas de conteúdos semelhantes circulando pelas plataformas.
O médico norte-americano Maurice Sholas também descobriu uma versão artificial de si mesmo vendendo suplementos vitamínicos que nunca havia indicado.
Outro levantamento, realizado pelo Office for Science and Society da Universidade McGill, verificou 65 referências científicas citadas em vídeos de saúde produzidos por IA. Apenas cinco foram localizadas como reais; as demais aparentavam ser estudos ou documentos inventados.
O que o YouTube afirma
O YouTube declarou que conteúdos gerados por inteligência artificial precisam obedecer às mesmas regras aplicadas aos demais vídeos.
A plataforma afirma proibir desinformação médica capaz de provocar danos graves e exige que criadores identifiquem conteúdos realistas que tenham sido produzidos ou alterados por IA.
Entre os exemplos que precisam ser sinalizados estão vídeos que fazem uma pessoa real parecer dar um conselho que nunca deu. A plataforma também permite que vítimas solicitem a remoção de conteúdos sintéticos que reproduzam realisticamente sua imagem ou voz.
Em maio de 2026, a empresa anunciou a expansão de sua ferramenta de detecção de imagem para criadores maiores de 18 anos. O sistema pode localizar vídeos que utilizem um rosto sem autorização, embora a identificação não resulte automaticamente na remoção.
No caso de Hélio Brasileiro, o YouTube informou suas políticas gerais, mas não respondeu especificamente aos questionamentos sobre a permanência dos canais que utilizaram a imagem do médico.
Liberdade não pode virar licença para fraude
A inteligência artificial não é, por si só, a responsável pelo golpe.
A tecnologia pode ajudar médicos, pesquisadores, empresas e pacientes. O problema começa quando alguém utiliza essas ferramentas para roubar uma identidade, fabricar autoridade e induzir pessoas vulneráveis ao erro.
Liberdade de expressão não significa liberdade para falsificar a fala de outra pessoa.
Inovação também não pode servir como desculpa para irresponsabilidade.
Criadores precisam responder pelo conteúdo que publicam. Plataformas precisam agir rapidamente após denúncias. E o público precisa desenvolver uma postura mais crítica diante de qualquer promessa extraordinária.
Como reconhecer um falso médico de IA
Antes de acreditar ou compartilhar, faça uma verificação rápida:
Pesquise o nome do médico e procure o canal oficial.
Confira se existe registro profissional e especialidade compatível.
Desconfie de promessas de cura rápida, definitiva ou “secreta”.
Observe falhas nos lábios, voz artificial, expressões repetidas e movimentos estranhos.
Verifique se o vídeo tenta vender produtos, guias ou suplementos.
Não interrompa medicamentos nem substitua tratamentos sem conversar com um profissional responsável pelo seu atendimento.
Um aviso na descrição dizendo que o conteúdo é “educativo” não transforma uma orientação falsa em informação segura.
O golpe pode estar chegando à sua família
O maior risco não é apenas comprar um produto inútil.
É um pai, uma mãe ou um avô abandonar uma medicação porque um rosto conhecido apareceu na tela dizendo que havia uma solução mais simples.
Na era da inteligência artificial, ver e ouvir deixou de ser prova suficiente.
A regra agora precisa ser direta: não confie na aparência; confirme a origem.
Compartilhe esta reportagem com seus pais, avós e familiares. Pergunte se eles já receberam vídeos de “médicos” prometendo curas ou mandando interromper medicamentos. Em caso de dúvida, procure o perfil oficial do profissional, denuncie o conteúdo e jamais altere um tratamento sem orientação médica. Você conseguiria identificar que um médico foi criado ou clonado por inteligência artificial? Deixe sua opinião nos comentários.
Fontes: BBC News Brasil; Terra; Folha de S.Paulo; YouTube; CTRL+Z; Secretaria da Segurança Pública de São Paulo; Conselho Federal de Medicina; FGV Direito Rio; CBS News; The Guardian; Full Fact; AARP; American Medical Association; Universidade McGill.
Da Redação.
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