Dois casos reacendem a pergunta que o Brasil evita: a Justiça pune o crime ou o símbolo?
Uma decisão no caso Henry Borel e a condenação de Débora Rodrigues dos Santos, a “Débora do Batom”, colocaram novamente a Justiça brasileira no centro de uma tempestade política, jurídica e moral.
De um lado, Monique Medeiros, mãe de Henry Borel, recebeu perdão judicial após o júri desclassificar a acusação de homicídio doloso para homicídio culposo. Do outro, Débora foi condenada a 14 anos de prisão por participação nos atos de 8 de janeiro, caso que se tornou símbolo de debate sobre proporcionalidade penal.
A pergunta que incendiou as redes é direta: o Brasil está vendo Justiça ou seletividade?
A comparação que explodiu na internet
A discussão ganhou força após o Jornal da Cidade Online publicar editorial classificando a situação como “desproporcional e inaceitável”, comparando o perdão judicial concedido a Monique com a condenação de Débora. A publicação também citou manifestações de internautas e do deputado Nikolas Ferreira contra a diferença de tratamento percebida entre os casos.
Mas aqui está o ponto que precisa ser dito com clareza: os casos são juridicamente diferentes, mas politicamente explosivos.
E é exatamente nessa diferença que nasce a crise de confiança.
O caso Henry Borel: o que a Justiça decidiu
Henry Borel morreu em março de 2021, no Rio de Janeiro. No julgamento concluído em junho de 2026, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão por homicídio qualificado, tortura e coação no curso do processo.
Monique Medeiros, mãe de Henry, teve a acusação de homicídio doloso desclassificada para homicídio culposo pelo Conselho de Sentença. Ela também foi condenada por tortura por omissão, mas a pena de 1 ano e 4 meses foi considerada cumprida por causa do período em que ficou presa preventivamente.
A juíza Elizabeth Machado Louro concedeu perdão judicial no homicídio culposo. A justificativa foi que Monique já teria sofrido consequências severas, como a perda do filho, a exposição pública, agressões no cárcere e o julgamento social marcado, segundo a magistrada, por discriminação de gênero.
O que é perdão judicial?
Perdão judicial não significa “inocência”. Significa que o juiz reconhece o crime e a autoria, mas deixa de aplicar a pena porque entende que as consequências do fato já atingiram o autor de forma extremamente grave. O Código Penal prevê essa possibilidade em casos específicos, como homicídio culposo.
Esse detalhe é decisivo: juridicamente, Monique não foi absolvida de tudo. Mas, na percepção popular, o efeito foi simples e brutal: ela saiu da prisão.

O recurso do Ministério Público
O caso ainda não acabou. O Ministério Público do Rio de Janeiro recorreu da decisão que concedeu perdão judicial a Monique. Segundo o UOL, o MPRJ questiona a alteração de um dos quesitos apresentados aos jurados durante a votação. O advogado Cristiano Medina, assistente de acusação de Leniel Borel, pai de Henry, também informou que pedirá a anulação do julgamento.
Ou seja: a decisão existe, mas ainda pode ser contestada.
O caso Débora do Batom: por que virou símbolo
Débora Rodrigues dos Santos ficou conhecida como “Débora do Batom” após escrever a frase “Perdeu, mané” com batom na estátua da Justiça, em frente ao Supremo Tribunal Federal, durante os atos de 8 de janeiro de 2023.
Ela foi condenada pela Primeira Turma do STF a 14 anos de prisão. No julgamento, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cármen Lúcia votaram pela pena de 14 anos; Cristiano Zanin propôs 11 anos; Luiz Fux divergiu e defendeu pena de 1 ano e 6 meses.
Em setembro de 2025, Moraes autorizou Débora a cumprir pena em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica, mesmo após o trânsito em julgado da condenação.
Por que a comparação viralizou?
Porque, para muita gente, a matemática emocional não fecha.
Monique estava ligada a um caso envolvendo a morte de uma criança, mas recebeu perdão judicial após a desclassificação da acusação. Débora, por sua vez, virou símbolo de uma condenação pesada ligada aos atos contra as instituições em Brasília.
O ponto de tensão não é apenas jurídico. É narrativo.
Para críticos do STF e da Justiça brasileira, o caso Débora representaria rigor extremo quando o crime tem carga política. Para defensores das condenações do 8 de janeiro, os atos não foram “apenas vandalismo”, mas ataques contra a ordem democrática.
A questão que fica
O Brasil está diante de dois processos diferentes, com crimes diferentes, tribunais diferentes e fundamentos jurídicos diferentes.
Mas a indignação popular nasce de uma sensação comum: a pena parece variar conforme o peso político do caso.
É essa sensação que corrói a confiança pública.
Quando a população não entende por que uma decisão parece branda em um caso e duríssima em outro, a Justiça deixa de ser vista como técnica e passa a ser percebida como seletiva.
A comparação entre Monique Medeiros e Débora do Batom não pode ser feita de forma rasa. Monique foi julgada no Tribunal do Júri do Rio; Débora foi julgada pelo STF nos processos do 8 de janeiro. Os crimes, as provas e os fundamentos são diferentes.
Mas a revolta social não nasce apenas da letra fria da lei. Ela nasce da percepção de proporcionalidade.
E esse é o ponto central: quando o cidadão comum olha para duas decisões e enxerga incoerência, a Justiça pode até ter fundamentos jurídicos, mas perde força simbólica diante da opinião pública.
Você acha que houve dois pesos e duas medidas ou os casos são juridicamente incomparáveis?
Comente sua opinião e compartilhe esta matéria com alguém que precisa entender o debate por trás da polêmica.
Fontes: Jornal da Cidade Online; Agência Brasil; Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro; UOL; CNN Brasil; CartaCapital; Folha de S.Paulo; TJDFT.
Da Redação.
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