Vantagem de Lula cai em 98% das cidades do Nordeste

Manifestação de apoiadores de Flávio Bolsonaro em Arapiraca, Alagoas, com bandeiras do Brasil, ilustrando o avanço da direita no interior do Nordeste.
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Flávio avança no interior, mas Lula ainda vence nos nove estados da região

A vantagem de Lula sobre os candidatos da família Bolsonaro caiu em 98% dos municípios do Nordeste entre o primeiro turno de 2022 e o de 2026, segundo levantamento da Folha de S.Paulo. O petista ainda venceu nos nove estados da região, mas perdeu margem diante de Flávio Bolsonaro. O segundo turno é em 25 de outubro.

Durante duas décadas, o Nordeste funcionou como o colchão eleitoral do PT. Era dali que vinha a folga para compensar o desempenho mais fraco no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste. Em 2026, esse colchão continua de pé, mas ficou mais fino.

De acordo com o levantamento divulgado pelo Diário do Poder a partir de dados da Folha, Lula somou 21,5 milhões de votos na região e Flávio Bolsonaro, 10,4 milhões. A votação do senador representa um crescimento de 18,3% sobre a de Jair Bolsonaro no mesmo território em 2022.

Esses números levantam uma pergunta que vai além da manchete: a queda da vantagem é uma mudança estrutural ou um ajuste pontual de um ciclo eleitoral muito polarizado? Este artigo reúne os dados, mostra onde a mudança foi mais forte, apresenta as explicações em disputa e aponta os limites da comparação.

Vantagem de Lula no Nordeste: o que o levantamento mostra

O levantamento comparou, município por município, a diferença de votos entre Lula e os Bolsonaro nos primeiros turnos de 2022 e 2026. O resultado é direto: em cerca de 98% das cidades nordestinas, essa diferença ficou menor.

Em resumo: a vantagem de um candidato sobre o outro, em um município, é a diferença entre os percentuais (ou os votos) que cada um recebeu ali. Quando essa diferença diminui, o líder local continua na frente, mas com folga menor.

Essa definição importa porque a manchete pode ser lida de forma errada. Uma vantagem menor não significa derrota. Lula segue como o mais votado na região, e a pesquisa mostra isso com clareza.

Os números centrais

Os dados apresentados no levantamento, segundo o Diário do Poder, são estes:

  • Lula teve 21,5 milhões de votos no Nordeste em 2026, contra 10,4 milhões de Flávio Bolsonaro.
  • Flávio cresceu 18,3% sobre a votação de Jair Bolsonaro na região em 2022.
  • O melhor desempenho de Flávio entre os nove estados foi em Alagoas, seguido por Rio Grande do Norte e Paraíba.
  • O candidato do PL venceu em 15 cidades nordestinas que Jair Bolsonaro não havia conquistado.
  • A maior mudança individual ocorreu em Balsas, no sul do Maranhão, polo do agronegócio.

Fazendo a conta por conta própria, Lula teve algo próximo de dois terços da soma dos votos dos dois candidatos na região. É uma vantagem ampla. A questão, portanto, não é quem lidera, e sim em que ritmo a distância está encolhendo.

Quem caminhou na direção oposta

O movimento não foi universal. Lula ampliou sua margem em apenas 30 dos cerca de 1.794 municípios nordestinos. Os maiores aumentos apareceram em cidades do Piauí, como São Julião e Pedro Laurentino, e no sul da Bahia, em municípios como Itaju do Colônia e Pau Brasil.

São exceções numericamente pequenas, mas úteis para entender que o eleitorado nordestino não se comporta como bloco único.

Onde a vantagem de Lula encolheu mais: cidades e padrões

Os casos mais expressivos têm um traço em comum: municípios pequenos ou médios, com economia ligada ao campo e prefeitos de partidos de centro e de oposição ao PT. A tabela abaixo resume os exemplos citados no levantamento.

MunicípioEstadoPerfil econômicoO que mudou
Dom Macedo CostaBAPecuária e agricultura de subsistênciaLula caiu de 71,5% para 59,3%; Flávio chegou a 35%, contra 23,5% de Jair; margem foi de 48 para cerca de 24 pontos
Caldeirão GrandeBASertão baianoVantagem de Lula caiu de 64 para 39 pontos percentuais
Baixa Grande do RibeiroPISoja no sul do estadoDiferença entre Lula e os Bolsonaro encolheu cerca de 29 pontos
BalsasMAAgronegócioMaior mudança registrada entre os municípios nordestinos

A tabela permite uma leitura rápida: onde há soja, grãos e pecuária em escala, a vantagem de Lula diminuiu mais. Onde a economia depende de forma mais intensa de transferências federais, a queda tende a ser menor, embora o levantamento não isole esse fator de maneira estatística.

O caso de Dom Macedo Costa

Dom Macedo Costa, no Recôncavo Baiano, tem cerca de 4,4 mil habitantes e é um bom retrato da mudança. A cidade depende de transferências federais e tem base na pecuária e na agricultura de subsistência. Mesmo assim, bandeiras verde-amarelas e comitês de apoio a Flávio se multiplicaram.

O prefeito Tote Fróes (União Brasil) apoiou o candidato do PL e atribuiu o movimento ao desgaste do PT após anos no poder. É uma explicação política de um ator local, não uma conclusão científica, e convém tratá-la assim.

Bahia e Piauí: o mesmo padrão em escalas diferentes

Em Caldeirão Grande, no sertão baiano, o prefeito Pedro Henrique Bezerra (PP) também apoiou Flávio. O mesmo padrão apareceu em cidades produtoras de grãos do oeste da Bahia, como Formosa do Rio Preto e Baianópolis, e em Barra da Estiva, na Chapada Diamantina.

No sul do Piauí, Baixa Grande do Ribeiro teve carreatas e paredões de som da militância de direita, algo que, segundo o levantamento, não ocorreu com a mesma intensidade em 2022.

Por que a vantagem de Lula diminuiu: as explicações em disputa

Nenhum levantamento de votos por município responde sozinho à pergunta “por quê”. O que existe são hipóteses, algumas com mais respaldo nos dados, outras apenas plausíveis. Vale separá-las.

Agronegócio e economia do interior

A hipótese mais citada liga a queda da vantagem ao peso do agronegócio. Cidades como Balsas, Baixa Grande do Ribeiro e municípios do oeste baiano concentram produção de soja e grãos, setor que historicamente tem maior afinidade com a direita. Essa leitura é coerente com os casos listados, mas não prova causalidade: o levantamento mostra coincidência entre perfil econômico e mudança de voto.

Prefeitos aliados e capilaridade local

Em vários dos municípios com maior queda, os prefeitos apoiaram Flávio abertamente. Prefeito com máquina administrativa, presença nas comunidades e relação direta com o eleitor costuma influenciar a eleição, sobretudo em cidades pequenas. O levantamento destaca que o avanço foi especialmente forte em cidades que passaram a ter gestores de oposição ao PT.

Mobilização de rua

Carreatas, comitês e paredões de som apareceram com mais força nesta eleição. A militância bolsonarista se mostrou mais organizada neste ciclo, segundo o levantamento, enquanto parte do eleitorado petista tradicional permaneceu fiel, especialmente entre beneficiários de programas sociais.

O contexto nacional pesa nos dois lados

A queda no Nordeste acontece dentro de um quadro nacional apertado. Segundo análise do jornal O Povo, Lula perdeu cerca de 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022 e teve o pior percentual de primeiro turno desde 1998. A mesma análise registra que Flávio conquistou 714 municípios que haviam dado maioria a Lula quatro anos antes.

Ao longo da campanha, os dois lados enfrentaram desgastes. Pesquisas da AtlasIntel indicaram prejuízo político a Lula por causa de investigações envolvendo o filho dele, Fábio Luís. Já a Quaest apontou que a revelação de que Flávio pediu recursos a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme “Dark Horse” desgastou a campanha do senador. Nenhum desses episódios explica sozinho o mapa do Nordeste, mas ajudam a entender por que a disputa chegou tão equilibrada.

O que os números não dizem

Uma vantagem que cai em 98% das cidades soa dramática. Antes de tirar conclusões, é preciso conhecer os limites da comparação.

Os adversários são diferentes. Em 2022, Lula enfrentou Jair Bolsonaro, então presidente e candidato à reeleição. Em 2026, enfrenta Flávio, com perfil e história distintos. A comparação mede a distância para “a família Bolsonaro”, não para o mesmo candidato.

Margem não é o mesmo que voto. A diferença entre dois candidatos pode encolher porque um perdeu votos, porque o outro ganhou, ou por ambos os fatores. O levantamento aponta crescimento de Flávio, mas a combinação exata varia de cidade para cidade.

Os recortes de contagem divergem. O levantamento da Folha fala em 15 cidades nordestinas vencidas por Flávio que Jair não havia ganhado. Já o mapa de votação do jornal O Povo contabilizou apenas oito municípios nordestinos vencidos por Flávio no total (quatro na Bahia, dois no Rio Grande do Norte, um em Pernambuco e um no Ceará). Os números não batem, provavelmente por diferença de critério, e o leitor deve conferir cada fonte antes de repetir um deles.

Há ruído por tamanho de cidade. Em municípios de poucos milhares de eleitores, algumas centenas de votos mudam o percentual de forma brusca. Isso não invalida o padrão geral, mas explica por que os exemplos mais chamativos vêm de cidades pequenas.

Alerta de leitura: “vantagem caiu” e “perdeu o Nordeste” são afirmações diferentes. A primeira é sustentada pelos dados. A segunda, não.

O Nordeste dentro do resultado nacional do primeiro turno

Para dimensionar a mudança, é preciso olhar o placar nacional. Segundo a apuração do TSE reproduzida pelo Portal de Prefeitura, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.503 votos e Lula com 53.879.538, uma diferença de 2.224.965 votos.

CandidatoPartidoVotos% dos votos válidos
Flávio BolsonaroPL56.104.50347,03%
LulaPT53.879.53845,16%
Augusto CuryAvante3.448.5692,89%
Romeu ZemaNovo326.4880,27%

Ninguém superou os 50% dos votos válidos, e por isso a eleição foi para o segundo turno. Segundo o O Povo, Lula teve mais votos que Flávio em 12 estados: todos os nove do Nordeste e três da região Norte. O Nordeste, portanto, continuou sendo o principal amortecedor do petista, ainda que com menos folga.

A surpresa em relação às pesquisas

As pesquisas indicavam um quadro diferente na reta final. O Datafolha divulgado em 1º de outubro projetava, em votos válidos, 45% para Lula e 40% para Flávio. O resultado real foi 45,16% para Lula e 47,03% para Flávio. Em outras palavras, Lula ficou praticamente onde as pesquisas apontavam, enquanto Flávio terminou muito acima do projetado.

Esse descompasso é um dado relevante para qualquer leitura do Nordeste: se o crescimento do candidato do PL foi subestimado nacionalmente, é razoável esperar que também tenha sido subestimado em parte das cidades do interior nordestino.

Vantagem de Lula cai em 98% das cidades do Nordeste
Vantagem de Lula cai em 98% das cidades do Nordeste

Pesquisas após o primeiro turno e o peso do Nordeste

Depois da votação, o Datafolha apontou Flávio com 49% e Lula com 45% em votos totais, conforme reportado pelo DCI, com margem de erro de dois pontos. A PoderData/Aya, divulgada no mesmo dia, indicou 53% a 47% para Flávio em votos válidos e 49% a 44% em votos totais.

O Datafolha e a Quaest preparavam novas rodadas para a semana de 14 e 15 de outubro. Como pesquisas mudam rápido, vale conferir os números mais recentes antes de citá-los.

Por que o Nordeste decide o jogo

Em uma disputa com diferença nacional de poucos pontos, a região funciona como reserva de votos. Quanto maior a vantagem de Lula ali, mais votos ele “transfere” para compensar o desempenho em outras regiões. Quando essa margem diminui, a conta nacional fica mais apertada.

Dois fatores merecem atenção:

  1. Comparecimento. Uma abstenção maior no Nordeste reduz o volume absoluto da vantagem, mesmo que os percentuais se mantenham.
  2. Votos do interior. Se a tendência de crescimento da direita em cidades médias do agronegócio continuar, o impacto soma-se em estados grandes como Bahia e Maranhão.

O que observar até 25 de outubro

A semana final pede olhar para sinais concretos, e não só para manchetes. Alguns pontos ajudam a acompanhar a disputa:

  1. Os novos números do Datafolha e da Quaest para o segundo turno, comparados com o resultado de 4 de outubro.
  2. O recorte regional das pesquisas, sobretudo a vantagem de Lula no Nordeste, que pesquisas anteriores chegaram a medir em margens muito superiores a 25 pontos.
  3. O destino dos votos de Augusto Cury, que somou 2,89% dos válidos, e dos eleitores que votaram em branco ou nulo.
  4. A atuação dos prefeitos do interior, que tiveram papel visível no primeiro turno.
  5. A taxa de comparecimento nos estados nordestinos.

Nenhum desses fatores, isolado, define o resultado. Juntos, indicam se a tendência de encolhimento da margem se manteve, se acelerou ou se perdeu força.

Uma leitura de bom senso

Quem acompanha eleições sabe que o primeiro turno e o segundo são disputas diferentes. A polarização reduz o espaço para candidatos menores, e o voto tende a se organizar em torno de dois nomes. Isso favorece quem mobiliza melhor a própria base e quem consegue atrair indecisos. Em ambos os critérios, o levantamento mostra que a direita avançou no interior nordestino, e também que o PT conserva uma base muito sólida na região.

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Conclusão

A vantagem de Lula no Nordeste continua grande, mas diminuiu em quase todos os municípios da região. Esse é o fato central do levantamento da Folha. Ele não autoriza dizer que o petista perdeu a região, e tampouco que a mudança é irreversível. Autoriza dizer que o voto nordestino ficou menos homogêneo, especialmente nas cidades pequenas e médias ligadas ao agronegócio e governadas por aliados da oposição.

Para o segundo turno, o recado é de cautela: números municipais ajudam a entender tendências, mas só as urnas de 25 de outubro vão mostrar o tamanho real da mudança. Se este conteúdo foi útil, compartilhe com quem acompanha a eleição e volte para ver as atualizações da cobertura.

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Aviso Importante

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e jornalístico, com base em fontes públicas e dados disponíveis até 18 de outubro de 2026. Resultados de pesquisas e apurações podem ser atualizados ou corrigidos. O texto não constitui orientação de voto nem expressa apoio a candidato ou partido. Para dados oficiais, consulte o site do Tribunal Superior Eleitoral.


O Nordeste ainda é de Lula, mas a margem está diminuindo. Na sua cidade, o mapa mudou? Conte nos comentários e compartilhe com quem acompanha a eleição.

Fontes:

Folha de S.Paulo, Diário do Poder, O Povo, TSE, Datafolha, PoderData/Aya, DCI, Portal de Prefeitura, Bloomberg Linea, Quaest, AtlasIntel

Da Redação.


Perguntas frequentes

O que significa a vantagem de Lula cair em 98% dos municípios do Nordeste?

Significa que, em 98% das cidades nordestinas, a diferença de votos entre Lula e os candidatos da família Bolsonaro foi menor em 2026 do que em 2022. Lula continua liderando na região, mas com margem reduzida na quase totalidade dos municípios.

Lula perdeu o Nordeste no primeiro turno de 2026?

Não. Lula terminou à frente de Flávio Bolsonaro nos nove estados do Nordeste, segundo análise do jornal O Povo. O que mudou foi a distância entre os dois, que diminuiu em quase todas as cidades da região.

Quantos votos Lula e Flávio Bolsonaro tiveram no Nordeste?

Segundo o levantamento da Folha divulgado pelo Diário do Poder, Lula obteve 21,5 milhões de votos na região e Flávio Bolsonaro, 10,4 milhões. A votação de Flávio equivale a um crescimento de 18,3% sobre a de Jair Bolsonaro em 2022.

Onde Flávio Bolsonaro foi melhor entre os estados nordestinos?

Alagoas foi o estado de melhor desempenho de Flávio entre os nove da região, seguido por Rio Grande do Norte e Paraíba. Alagoas é também o estado do deputado Alfredo Gaspar (PL), candidato a vice na chapa.

Quais cidades tiveram a maior queda na vantagem de Lula?

O levantamento destaca Balsas (MA) como a maior mudança, além de Dom Macedo Costa e Caldeirão Grande, na Bahia, e Baixa Grande do Ribeiro, no Piauí. São municípios com economia ligada ao campo e prefeitos que apoiaram Flávio.

Quando será o segundo turno e quem disputa?

O segundo turno da eleição presidencial de 2026 será em 25 de outubro, entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). Nenhum dos dois alcançou mais da metade dos votos válidos no primeiro turno, realizado em 4 de outubro.

Por que a vantagem de Lula diminuiu no interior do Nordeste?

Não há uma causa única comprovada. O levantamento aponta o peso do agronegócio, o apoio de prefeitos de oposição ao PT e uma mobilização de rua mais intensa da direita. Também pesam o desgaste de governo após anos no poder e o equilíbrio geral da disputa nacional.

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