Projeto pode banir 19 craques da Seleção

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Texto restringe convocações a clubes do Brasil e declara guerra às bets no futebol.

De uma canetada, 19 dos 26 jogadores levados pelo Brasil à Copa do Mundo de 2026 poderiam ficar impedidos de vestir novamente a camisa da Seleção. E Carlo Ancelotti também estaria fora.

Esse seria o impacto imediato do Projeto de Lei 3.582/2026, apresentado pelo deputado federal Luiz Carlos Hauly, do Podemos do Paraná.

O texto determina que as seleções brasileiras masculina, feminina e de base sejam formadas exclusivamente por atletas registrados em clubes sediados no Brasil. A comissão técnica também teria de ser composta por brasileiros vinculados profissionalmente a entidades esportivas nacionais.

A proposta chega em meio à revolta provocada pela eliminação brasileira diante da Noruega, nas oitavas de final da Copa de 2026. O Brasil perdeu por 2 a 1, com dois gols de Erling Haaland e um gol tardio de Neymar. A queda ampliou as cobranças sobre jogadores, dirigentes e a própria estrutura da Seleção.

Quem seria barrado pela nova regra?

Na convocação feita por Carlo Ancelotti para a Copa, apenas sete dos 26 atletas atuavam no futebol brasileiro: Weverton, Alex Sandro, Danilo, Léo Pereira, Danilo Santos, Lucas Paquetá e Neymar.

Os outros 19 defendiam equipes estrangeiras. Isso significa que aproximadamente 73% do elenco mundialista ficaria inelegível caso a regra já estivesse em vigor.

Nomes como Alisson, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Casemiro, Raphinha, Vinícius Júnior, Endrick e Gabriel Martinelli não poderiam ser chamados enquanto permanecessem vinculados a clubes do exterior.

Ancelotti também seria atingido. O projeto exige que o treinador principal tenha nacionalidade brasileira, o que impediria a permanência do técnico italiano no comando da equipe em competições oficiais.

O que o projeto determina

O PL 3.582/2026 foi protocolado em 8 de julho de 2026 e estabelece quatro mudanças de grande impacto:

somente atletas de clubes brasileiros poderiam disputar competições internacionais pela Seleção;
treinador e comissão técnica precisariam ser brasileiros;
a regra também valeria para as seleções feminina e de base;
amistosos e eventos promocionais poderiam receber autorização excepcional.

O texto não estabelece um período mínimo de permanência no futebol nacional. Na prática, isso abre espaço para uma brecha: um jogador poderia retornar ou ser emprestado a um clube brasileiro antes de uma competição para recuperar sua condição de convocável.

Não é apenas futebol: as bets também estão na mira

A parte menos divulgada — e economicamente mais explosiva — está no artigo 4º.

O projeto proíbe clubes, federações, confederações e outras entidades esportivas de firmar ou manter contratos de patrocínio, publicidade, licenciamento ou direitos de nome com empresas de apostas e jogos de azar.

A proibição alcançaria uniformes, estádios, centros de treinamento, placas publicitárias, entrevistas, transmissões, sites, redes sociais e campanhas institucionais. Os contratos existentes teriam de ser encerrados em até 180 dias depois da eventual entrada em vigor da lei.

O impacto financeiro seria expressivo. No início do Brasileirão de 2026, 12 dos 20 clubes da Série A exibiam empresas de apostas como patrocinadoras principais. Uma retirada repentina exigiria que os times encontrassem novas fontes de receita em poucos meses.

Por outro lado, Hauly argumenta que a presença permanente dessas marcas normaliza as apostas entre crianças e adolescentes, aumenta riscos sociais e pode comprometer a credibilidade das competições.

A defesa: recuperar identidade e fortalecer os clubes

O deputado sustenta que a transferência precoce de jovens talentos enfraqueceu os campeonatos brasileiros, reduziu a competitividade dos clubes formadores e afastou a torcida da Seleção.

A lógica é simples: se atuar no Brasil for condição obrigatória para defender o país, jogadores de alto nível teriam um incentivo adicional para permanecer ou retornar ao futebol nacional.

Isso poderia aumentar a audiência dos campeonatos, valorizar atletas locais, fortalecer categorias de base e aproximar novamente o torcedor dos convocados. Essa é a principal bandeira nacionalista da proposta.

O outro lado: o Brasil abriria mão de seus melhores jogadores?

O problema é igualmente evidente.

As principais ligas europeias concentram alguns dos atletas brasileiros mais valorizados e experientes. Impedir suas convocações significaria reduzir drasticamente o universo disponível para o treinador.

O Brasil deixaria de escolher os melhores jogadores brasileiros onde quer que atuem e passaria a escolher apenas os melhores que permanecessem no país.

Para os críticos, isso poderia enfraquecer a Seleção justamente no momento em que outras potências utilizam atletas espalhados pelas maiores ligas do mundo. Para os defensores, porém, o modelo atual criou estrelas distantes da realidade do torcedor e não conseguiu entregar o hexacampeonato.

Hauly já tentou fazer isso antes

A proposta não é inédita.

Depois da eliminação brasileira para a França na Copa de 2006, Luiz Carlos Hauly apresentou o PL 7.283/2006, que também pretendia impedir a convocação de jogadores que atuavam no exterior.

A versão antiga era ainda mais rígida. O atleta teria de atuar no Brasil durante os 12 meses anteriores à competição, e jogadores com dupla nacionalidade também seriam atingidos.

Naquele Mundial, somente Rogério Ceni, Ricardinho e Mineiro atuavam em clubes brasileiros. O projeto não avançou e acabou arquivado.

Vinte anos depois, o deputado retoma praticamente a mesma tese, agora acrescentando a proibição dos patrocínios de apostas.

O projeto pode ser considerado inconstitucional?

Esse deverá ser um dos principais campos de batalha.

O artigo 217 da Constituição Federal garante autonomia às entidades esportivas dirigentes e às associações quanto à organização e ao funcionamento. A CBF pode argumentar que a escolha de jogadores e treinadores faz parte dessa autonomia técnica.

O gabinete de Hauly sustenta que essa autonomia não é absoluta e que o Congresso pode legislar sobre integridade esportiva, publicidade, proteção de crianças e adolescentes, recursos públicos e apostas.

Existe, portanto, uma divisão jurídica importante:

De um lado, o Estado pode criar normas gerais para o esporte.

Do outro, determinar exatamente quem a CBF pode convocar representa uma interferência muito mais direta em uma decisão esportiva.

A constitucionalidade provavelmente será examinada pelas comissões da Câmara e, caso a proposta avance, poderá ser questionada judicialmente.

Existe risco de punição pela FIFA?

A FIFA exige que suas federações nacionais administrem seus assuntos sem interferência indevida de governos ou terceiros.

A entidade já suspendeu federações de países como Paquistão, Chade, Mali, Serra Leoa, Sri Lanka e Congo após intervenções governamentais em suas estruturas administrativas.

Isso não significa que o Brasil seria automaticamente suspenso caso o projeto virasse lei. Os casos anteriores envolveram situações mais amplas, como tomada de sedes, destituição de dirigentes e controle governamental das federações.

Mesmo assim, uma lei determinando critérios técnicos de convocação poderia provocar questionamentos da FIFA e abrir uma disputa entre a legislação brasileira, a autonomia da CBF e as regras internacionais do futebol.

O projeto já está valendo?

Não.

Até a atualização desta matéria, o PL 3.582/2026 havia apenas sido apresentado e ainda não tinha sido encaminhado às comissões responsáveis por sua análise.

Para virar lei, o texto ainda precisa superar a tramitação na Câmara, passar pelo Senado e receber sanção presidencial. Durante esse processo, pode ser alterado, dividido, rejeitado ou arquivado.

Portanto, nenhuma convocação foi proibida e nenhum contrato de patrocínio precisa ser encerrado neste momento.

Uma discussão que vai muito além de 11 jogadores

O projeto toca em três pontos sensíveis ao mesmo tempo: identidade nacional, autonomia esportiva e dinheiro.

A proposta pode fortalecer o futebol brasileiro e reaproximar a Seleção do torcedor. Também pode limitar o acesso aos principais talentos do país, provocar perdas milionárias nos clubes e abrir um conflito jurídico com a CBF e a FIFA.

A pergunta agora não é apenas quem merece vestir a camisa amarela.

É quem deve ter o poder de decidir isso: o treinador, a CBF ou o Congresso Nacional?


Você apoiaria uma Seleção formada somente por jogadores que atuam no Brasil?
Comente:
“Brasil” — se você apoia a proposta.
“Mundo” — se os melhores devem ser convocados onde estiverem.
“Meio-termo” — se você defende uma quantidade mínima de atletas do futebol nacional.

Fontes: Câmara dos Deputados; Constituição Federal; Palácio do Planalto; SBT News; Congresso em Foco; Rádio Itatiaia; Diário 360; Rede Sampi; ge; FIFA; Poder360; The Guardian; El País.

Da Redação.

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