Pré-candidato tenta recompor aliança antes da convenção do PL, enquanto o voto feminino vira alerta.
A divisão deixou de ser apenas um problema familiar. Agora, ameaça entrar oficialmente na campanha presidencial.
A pouco mais de duas semanas da convenção que deverá confirmar seu nome na disputa pelo Palácio do Planalto, o senador Flávio Bolsonaro fez um apelo público para que Michelle Bolsonaro volte à linha de frente do projeto eleitoral.
Depois de desembarcar dos Estados Unidos, onde participou de discussões sobre as tarifas aplicadas aos produtos brasileiros, Flávio afirmou que continua aberto ao diálogo e espera ver a ex-primeira-dama “vestindo a camisa” de sua campanha.
O gesto tem endereço certo: Michelle. Mas também tenta enviar um recado para todo o campo conservador.
A guerra contra Lula, na visão de Flávio, não comportaria uma direita dividida.
O apelo público de Flávio
Em entrevista ao SBT News nesta quinta-feira, 9 de julho, Flávio disse respeitar o tempo de Michelle, mas declarou que espera contar com sua participação ativa na campanha presidencial.
O senador afirmou que todos os integrantes da oposição precisam permanecer unidos para impedir mais quatro anos de governo do PT. Durante a entrevista, chegou a classificar a atual administração federal como “inimigo do Brasil” — expressão que representa a avaliação política do pré-candidato, e não uma conclusão jornalística.
A declaração aconteceu um dia depois de o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, assumir publicamente o papel de mediador.
Valdemar afirmou que pretende conversar com Flávio e insistir com Michelle para que a crise seja resolvida antes da convenção do partido, marcada para 25 de julho, em São Paulo. Ele classificou a ex-primeira-dama como uma “grande líder” e reconheceu que sua presença é importante para a campanha.
Como uma disputa no Ceará provocou um terremoto nacional
O conflito começou nas articulações eleitorais do PL no Ceará.
Michelle se posicionou contra uma eventual aproximação com Ciro Gomes no primeiro turno e passou a defender uma candidatura claramente identificada com a direita. Ela também apoiou a vereadora Priscila Costa para uma vaga no Senado.
Flávio e dirigentes partidários, por outro lado, analisavam acordos mais pragmáticos, capazes de ampliar a coligação regional.
Uma divergência que poderia permanecer restrita aos bastidores explodiu quando Michelle publicou vídeos acusando o enteado de ter sido ríspido, de desrespeitá-la e de diminuir sua relevância política.
Segundo ela, a conversa teria passado a impressão de que seu apoio à candidatura presidencial seria considerado insignificante. Flávio negou ter maltratado ou humilhado Michelle, afirmou que não teve a intenção de ofendê-la e pediu desculpas caso ela tivesse se sentido desrespeitada.
Poucos dias depois, Michelle deixou a presidência nacional do PL Mulher. Pessoas próximas aos dois lados passaram a tratar uma reconciliação rápida como improvável, embora o comando do partido ainda trabalhe por uma trégua.
Michelle não é apenas um apoio familiar
É justamente aí que o problema ganha proporções eleitorais.
Michelle Bolsonaro construiu nos últimos anos uma rede política própria, com presença em igrejas, encontros conservadores e eventos voltados ao público feminino. Sua atuação no PL Mulher ajudou a organizar candidaturas e aproximar eleitoras que nem sempre se identificam com o estilo mais combativo de parte do bolsonarismo.
A ex-primeira-dama também possui forte reconhecimento entre o eleitorado evangélico e conservador.
Pesquisa Meio/Ideia divulgada em 8 de julho mostrou que Michelle foi citada espontaneamente por 15,4% dos entrevistados como a mulher mais poderosa do Brasil, à frente da primeira-dama Janja, mencionada por 9%.
Isso explica por que Valdemar não trata o afastamento como uma simples briga doméstica.
Sem Michelle, Flávio perde uma das principais pontes de sua campanha com mulheres conservadoras, religiosas e eleitoras que apoiam Jair Bolsonaro, mas ainda demonstram resistência ao senador.
Os números que acenderam o alerta
A urgência da reconciliação aparece nas pesquisas.
No levantamento Meio/Ideia realizado entre 3 e 6 de julho, Lula registrou 45% contra 40% de Flávio em uma simulação de segundo turno. O resultado representa empate técnico no limite da margem de erro, que é de 2,5 pontos percentuais. No primeiro turno, Lula apareceu com 40,4% e Flávio com 32%.
Outro levantamento, do BTG Pactual/Nexus, mostrou uma divisão expressiva entre homens e mulheres. Lula marcou 55% entre as eleitoras, contra 37% de Flávio. Entre os homens, o senador apareceu à frente, com 49%, enquanto Lula registrou 42%. No resultado geral daquela pesquisa, Lula teve 49% e Flávio, 43%.
Pesquisas diferentes possuem metodologias e períodos de coleta distintos. Portanto, não podem ser comparadas como se fossem uma única sequência.
Também não é possível afirmar que o conflito com Michelle tenha provocado sozinho a diferença entre homens e mulheres. Os dados, porém, revelam o tamanho do desafio que a campanha enfrenta justamente no segmento em que a ex-primeira-dama possui maior capacidade de mobilização.
O que realmente está em disputa
O episódio expõe três conflitos ao mesmo tempo.
Primeiro, existe uma crise familiar, marcada por acusações de falta de respeito e ressentimentos que passaram a ser discutidos publicamente.
Segundo, há uma disputa partidária entre a manutenção de uma identidade conservadora rígida e a construção de alianças pragmáticas para ampliar o palanque de Flávio.
Terceiro, existe uma batalha silenciosa pelo comando do legado político de Jair Bolsonaro.
Flávio se apresenta como o escolhido pelo pai para disputar a Presidência. Michelle, por sua vez, demonstra possuir voz própria, influência partidária e uma base que não depende exclusivamente dos filhos do ex-presidente.
Três caminhos até a convenção
A partir dos movimentos públicos, três cenários aparecem como possíveis:
Reconciliação completa: Michelle aceita participar da convenção e declara apoio aberto a Flávio, produzindo uma imagem de unidade.
Trégua limitada: os dois interrompem as críticas, mas Michelle permanece distante da campanha presidencial.
Rompimento prolongado: Michelle mantém sua atuação própria e Flávio tenta compensar a ausência com outras lideranças femininas.
Esta é uma análise baseada nos posicionamentos divulgados até agora. Não há confirmação pública de qual caminho será adotado.
Campanha já prepara um plano alternativo
Enquanto tenta recuperar Michelle, a equipe de Flávio trabalha para reforçar a presença de outras mulheres na campanha.
A esposa do senador, Fernanda Bolsonaro, está sendo preparada para participar de mais eventos, gravar vídeos e apresentar propostas relacionadas à saúde e às demandas femininas. A pré-campanha também avalia nomes de mulheres para a vice-presidência.
Mas há uma diferença evidente.
Fernanda pode ajudar a humanizar a imagem do marido. Uma vice mulher pode ampliar a chapa. Nenhuma delas, entretanto, substitui automaticamente o capital político que Michelle construiu dentro do eleitorado conservador e evangélico.
O relógio político está correndo
A convenção nacional do PL está marcada para 25 de julho, na Arena Pacaembu, em São Paulo. O encontro deverá oficializar Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência e definir parte das alianças nacionais e estaduais.
Flávio já fez o gesto público. Valdemar assumiu a mediação. Agora, todas as atenções estão voltadas para Michelle.
Uma aparição ao lado do senador poderá transformar o episódio em narrativa de reconciliação e unidade.
A ausência, por outro lado, será interpretada como sinal de que o racha continua — justamente quando a direita tenta reunir forças para enfrentar Lula nas urnas.
No jogo político, o silêncio também comunica.
Na sua opinião, Michelle deve superar as divergências e entrar na campanha de Flávio, ou a direita precisa mostrar que seu projeto vai além da família Bolsonaro? Comente, compartilhe esta matéria e acompanhe o Pode em Foco News para receber as principais notícias e bastidores das eleições de 2026.
Fontes: Diário do Poder; SBT News; Reuters; Congresso em Foco; Correio Popular/RAC; Poder360; Folha de S.Paulo; Meio/Ideia e BTG Pactual/Nexus.
Da Redação.
About The Author
Descubra mais sobre PodEmFocoNews
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.







