Café, carne e aviões escapam; máquinas, açúcar e calçados seguem sob pressão.
Trump recua em 2.100 itens, mas mantém tarifaço
O tarifaço veio. Mas não atingiu o Brasil inteiro como muitos temiam.
Os Estados Unidos confirmaram uma tarifa adicional de 25% sobre uma parcela das importações brasileiras, com entrada em vigor marcada para 22 de julho de 2026. Ao mesmo tempo, o governo de Donald Trump ampliou consideravelmente a lista de exceções, poupando setores estratégicos para o Brasil — e, principalmente, indispensáveis para a própria economia americana.
Café, carne bovina, petróleo, minério, laranja, suco de laranja, produtos aeronáuticos e centenas de insumos industriais ficaram fora da nova cobrança.
O recuo, porém, está longe de representar o fim da guerra comercial.
Enquanto alguns gigantes respiram aliviados, setores industriais como máquinas, calçados, vestuário, açúcar, etanol e determinados produtos manufaturados continuam diretamente expostos à tarifa americana.
O que realmente significa a isenção de 2.100 produtos?
A primeira cautela necessária é com o número que domina as manchetes.
Quando as notícias afirmam que mais de 2.100 produtos foram isentados, isso não significa necessariamente 2.100 mercadorias diferentes encontradas nas prateleiras. O documento americano trabalha com códigos e classificações tarifárias do sistema HTSUS, que podem incluir variações, apresentações e subdivisões de um mesmo produto.
Na prática, a lista é extensa e ocupa grande parte do documento de 138 páginas publicado pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR.
Ainda assim, a ampliação das exceções foi relevante. De acordo com estimativa divulgada pela Amcham Brasil e reproduzida pela Reuters, a lista final ampliou as isenções em aproximadamente 25% e protegeu cerca de US$ 11 bilhões em comércio anual.
Quem escapou do tarifaço?
Entre os produtos brasileiros mais importantes preservados estão:
Café
Café verde, torrado, descafeinado e café solúvel não aromatizado ficaram fora da nova sobretaxa.
A decisão protege exportações brasileiras estimadas pelas entidades do setor entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por ano para o mercado americano. Estados Unidos e Brasil possuem uma relação de forte dependência nessa cadeia: os americanos são grandes consumidores, enquanto o Brasil ocupa posição central no abastecimento mundial.
Carne bovina
Cortes frescos, refrigerados, congelados, carnes processadas e algumas miudezas também foram preservados.
A isenção chama atenção porque o preço da carne é um tema sensível para o consumidor americano. Taxar o produto brasileiro poderia pressionar ainda mais os custos internos nos Estados Unidos.
Aeronaves e componentes
Aviões civis, motores, hélices, trens de pouso e diversos componentes aeronáuticos foram excluídos da cobrança.
O próprio documento americano reconhece que determinados produtos foram poupados por serem essenciais às cadeias produtivas dos Estados Unidos, não possuírem oferta doméstica suficiente ou provocarem perturbações econômicas caso fossem encarecidos.
Petróleo, minérios e insumos industriais
Petróleo bruto, gás natural, minério de ferro, grafite, caulim, fosfatos, ferro-gusa e outros insumos também aparecem entre as exceções.
O ferro-gusa brasileiro, por exemplo, é utilizado por fundições e siderúrgicas americanas. Aplicar 25% sobre esse tipo de matéria-prima poderia encarecer a produção dentro dos próprios Estados Unidos.
Laranja, sucos, frutas e alimentos
Laranja, suco de laranja, manga, mamão, abacaxi, coco, castanhas, especiarias, mel orgânico e determinados pescados também ficaram protegidos.
Somados, aviação civil, petróleo, café e carne bovina responderam por aproximadamente um terço das exportações brasileiras aos Estados Unidos no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil.
O alívio tem um motivo: os EUA também precisam do Brasil
A ampliação das exceções não ocorreu apenas por boa vontade diplomática.
O USTR recebeu mais de 360 manifestações escritas, realizou audiências públicas nos dias 6 e 7 de julho e ouviu 77 testemunhas. Empresas americanas alertaram que uma taxação indiscriminada poderia provocar falta de matérias-primas, aumento de preços e perda de competitividade dentro dos próprios Estados Unidos.
Esse é um dos pontos centrais da decisão.
Washington preservou justamente produtos que:
não são produzidos em quantidade suficiente nos Estados Unidos;
poderiam gerar desabastecimento;
elevariam custos para indústrias americanas;
causariam perturbações mais amplas na economia;
não ajudariam diretamente a pressionar o governo brasileiro.
Ou seja: Trump manteve a pressão sobre o Brasil, mas evitou atingir com força setores dos quais os próprios americanos dependem.
Quem continua na linha de fogo?
A parte mais delicada da decisão está fora da lista de exceções.
Entre os setores que permanecem expostos estão:
açúcar;
etanol;
calçados;
roupas e produtos têxteis;
madeira e derivados;
máquinas e equipamentos;
máquinas elétricas não ligadas à aviação;
determinados produtos químicos;
diversos bens manufaturados.
No caso de aço, alumínio e derivados, a análise exige atenção especial. Produtos já atingidos pelas tarifas da chamada Seção 232 não recebem necessariamente esta nova cobrança de 25%, mas podem continuar submetidos a outras tarifas americanas, algumas chegando a 50%. A incidência dependerá do código tarifário específico da mercadoria.
A indústria deve sentir mais do que o agronegócio
O desenho final protege vários dos maiores produtos da pauta exportadora brasileira, mas concentra parte relevante do impacto sobre a indústria de transformação.
Cálculos da MB Associados divulgados pela Folha estimam que aproximadamente 51,5% da pauta exportadora estaria coberta por isenções, enquanto cerca de 25,2% ficaria diretamente exposta à nova tarifa de 25%. Outros 14,3% já enfrentariam tarifas da Seção 232.
A consultoria estima uma tarifa efetiva próxima de 16,5% no cenário central, podendo chegar a 18% em uma situação mais adversa. O custo tarifário bruto poderia alcançar aproximadamente US$ 2,38 bilhões por ano, embora o número ainda dependa da classificação final de cada mercadoria e de outras investigações em andamento.
Portanto, dizer simplesmente que “o Brasil foi taxado em 25%” não retrata toda a realidade.
Alguns produtos estarão isentos. Outros pagarão 25%. Há itens submetidos a regimes diferentes e setores que ainda podem enfrentar novas medidas.
E a região de Americana e Campinas?
Para empresas exportadoras da Região Metropolitana de Campinas e do eixo de Americana, Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa e Sumaré, o ponto decisivo será identificar o código HTSUS correspondente ao produto vendido.
Máquinas, equipamentos, plásticos, produtos elétricos, têxteis e manufaturados aparecem entre as cadeias potencialmente mais expostas. Veículos regionais como Liberal e Correio Popular já destacaram a disputa envolvendo Pix, etanol, máquinas e produtos industriais.
Uma empresa não deve concluir que está isenta apenas porque seu setor aparece genericamente na lista.
Dentro de uma mesma categoria, um modelo pode estar protegido e outro pode ser tributado. A confirmação precisa ser feita pelo código tarifário, pela descrição técnica, pela origem declarada e pelo regime de importação utilizado nos Estados Unidos.
Por que os EUA decidiram taxar o Brasil?
O USTR afirma que a investigação identificou práticas brasileiras consideradas “irracionais ou discriminatórias” em áreas como:
comércio digital;
serviços eletrônicos de pagamento;
tarifas preferenciais;
proteção da propriedade intelectual;
combate à corrupção;
acesso ao mercado brasileiro de etanol;
combate ao desmatamento ilegal.
A discussão sobre pagamentos digitais envolve, entre outros pontos, o ambiente competitivo criado pelo Pix e as reclamações de empresas americanas do setor financeiro.
Na visão do governo Trump, essas políticas dificultariam a atuação de empresas, agricultores e exportadores americanos no Brasil.
O governo brasileiro rejeita essa interpretação e afirma que o Pix é uma infraestrutura pública aberta às instituições autorizadas a operar no país. Brasília também contesta as acusações ambientais, comerciais e regulatórias utilizadas pelos Estados Unidos.
Duas versões e uma disputa política crescente
O representante comercial americano, Jamieson Greer, afirmou que a medida faz parte da política “America First” e seria necessária para proteger trabalhadores e empresas dos Estados Unidos.
Já o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, declarou que Washington teria exigido abertura ampla de setores da economia brasileira sem oferecer contrapartidas equivalentes. Segundo ele, os Estados Unidos buscavam uma espécie de “capitulação” comercial do Brasil.
Esse choque de versões mostra que o conflito ultrapassou a discussão meramente tarifária.
De um lado, Trump usa o acesso ao maior mercado consumidor do mundo como instrumento de pressão. Do outro, o governo Lula tenta apresentar a reação como defesa da soberania e da autonomia regulatória brasileira.
A leitura equilibrada exige reconhecer dois pontos: o Brasil possui barreiras comerciais que precisam ser discutidas tecnicamente, mas tarifas generalizadas também podem ser usadas como instrumento político e causar danos a empresas e consumidores dos dois países.
Brasil prepara reciprocidade e ação na OMC
Após a confirmação da medida, o governo brasileiro informou que iniciaria os procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica e retomaria a disputa no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.
As medidas de reciprocidade ainda não significam uma retaliação automática. Antes da aplicação, o governo deverá avaliar os produtos, os impactos sobre consumidores brasileiros, a dependência de insumos americanos e os riscos de nova escalada.
Uma resposta mal calibrada poderia atingir a própria indústria brasileira.
Por isso, o caminho mais responsável passa por firmeza diplomática, defesa dos interesses nacionais e pragmatismo econômico — sem submissão, mas também sem transformar uma disputa comercial em uma guerra movida apenas por discursos políticos.
Outro risco ainda está aberto
Além da tarifa de 25%, existe uma segunda investigação americana relacionada a trabalho forçado, que pode resultar em uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre produtos de dezenas de economias, incluindo o Brasil.
Antes da divulgação da lista final, a Confederação Nacional da Indústria projetava que a combinação das duas medidas poderia atingir até 4.187 classificações exportadas, envolvendo US$ 14,9 bilhões em vendas e tarifas acumuladas de até 37,5%. Esse cálculo era um cenário preliminar e não deve ser confundido com o impacto definitivo da medida anunciada agora.
O tarifaço diminuiu, mas não desapareceu
A lista de exceções evitou um choque maior sobre café, carne, petróleo, minério, frutas e aviação.
Mas o problema apenas mudou de endereço.
O peso agora se concentra sobre empresas industriais, fabricantes de máquinas, calçados, roupas, produtos de madeira, açúcar, etanol e outros segmentos que costumam gerar emprego, tecnologia e valor agregado dentro do Brasil.
A guerra comercial não terminou. Ela entrou em uma fase mais seletiva — e possivelmente mais perigosa para quem ficou fora da lista de proteção.
Na sua opinião, o Brasil deve responder com tarifas equivalentes ou insistir na negociação diplomática? Deixe seu comentário e compartilhe esta matéria com empresários, trabalhadores e exportadores que podem ser atingidos pela nova medida.
Fontes: United States Trade Representative; Federal Register; Forbes Brasil; Reuters; Associated Press; Agência Brasil; Ministério do Desenvolvimento; Indústria, Comércio e Serviços; Ministério das Relações Exteriores; Confederação Nacional da Indústria; Amcham Brasil; Folha de S.Paulo e Correio Popular.
Da Redação.
About The Author
Descubra mais sobre PodEmFocoNews
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.










