PCC, CV e Al-Qaeda: o elo financeiro sob suspeita

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Operação rastreia R$ 100 milhões e encontra transação com homem sancionado pelos EUA.

Uma investigação sobre capinhas piratas terminou no radar do terrorismo internacional

Tudo começou com uma denúncia aparentemente comum: a venda de acessórios falsificados para celulares no Rio de Janeiro.

Mas, quando os investigadores seguiram o dinheiro, encontraram algo muito maior.

Empresas de fachada, depósitos fracionados, operadores financeiros, integrantes de três facções brasileiras e uma transação envolvendo um homem classificado pelos Estados Unidos como integrante de uma rede de apoio à Al-Qaeda.

A Operação Hawala, deflagrada em 15 de julho pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, atingiu uma estrutura suspeita de movimentar mais de R$ 100 milhões ligados ao tráfico de drogas. Foram cumpridos dez mandados de prisão e 37 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Foz do Iguaçu, no Paraná.

O caso acendeu um alerta nacional. Mas exige uma distinção fundamental:

A investigação encontrou um possível elo financeiro. Até agora, não está comprovada uma aliança direta entre PCC, Comando Vermelho, TCP e Al-Qaeda.

Essa diferença é decisiva para compreender o que realmente foi descoberto — e o que ainda depende da análise dos celulares, computadores e documentos apreendidos.

A loja que movimentou milhões

A investigação começou quando representantes de marcas de acessórios para celular denunciaram a comercialização de produtos falsificados.

A apuração chegou a estabelecimentos ligados ao Complexo de São Carlos, na região central do Rio, área sob influência do traficante Marcílio Cherú de Oliveira, conhecido como Menor Cherú, apontado pela polícia como liderança do Terceiro Comando Puro.

Uma das principais investigadas é Bárbara Luzia Souza de Carvalho.

Segundo a Polícia Civil, Bárbara declarava renda mensal de aproximadamente R$ 880 e recebia Bolsa Família. Apesar disso, uma loja administrada por ela teria movimentado mais de R$ 47 milhões durante o período investigado.

Presa durante a operação, ela negou conhecer as movimentações financeiras. Sua defesa informou inicialmente que ainda não tinha acesso integral aos autos e, por isso, não apresentaria manifestação detalhada.

A disparidade entre a renda declarada e o volume movimentado levou os investigadores a aprofundarem o rastreamento das contas.

Foi nesse momento que o caso deixou os limites do Rio de Janeiro.

Os irmãos apontados como operadores do esquema

Seguindo o fluxo financeiro, a polícia chegou aos empresários libaneses Reda Zayoun, Yasser Zayoun e Kassem Zayoun, moradores de São Paulo.

Os três foram presos durante a operação. Reda foi localizado em Foz do Iguaçu, região estratégica próxima às fronteiras com Paraguai e Argentina.

De acordo com a investigação, o grupo funcionaria como uma espécie de prestador de serviços financeiros para criminosos. Não atuaria exclusivamente para uma única facção, mas seria contratado por operadores ligados ao TCP, ao Comando Vermelho e ao PCC.

O dinheiro de origem ilícita seria utilizado na aquisição e importação de peças e acessórios de celulares. Esses produtos eram revendidos, gerando documentos e movimentações comerciais capazes de dar aparência legítima aos recursos.

Os valores também seriam distribuídos em depósitos menores, técnica conhecida como smurfing, utilizada para dificultar a detecção de grandes movimentações pelos sistemas de controle financeiro.

Entre 2021 e 2024, os operadores teriam movimentado mais de R$ 100 milhões relacionados às três facções.

A transação que mudou o rumo da investigação

A conexão internacional surgiu durante a análise das movimentações atribuídas a Reda Zayoun.

Os investigadores encontraram uma transação entre o empresário e Haytham Ahmad Shukri Ahmad Al-Maghrabi, egípcio sancionado em dezembro de 2021 pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

O governo norte-americano classifica Al-Maghrabi como integrante de uma rede de apoio à Al-Qaeda instalada no Brasil.

Segundo o Tesouro dos EUA, ele chegou ao país em 2015, manteve contatos e negócios envolvendo compra de moeda estrangeira e teria prestado apoio financeiro, material ou tecnológico à organização terrorista.

A transação identificada pela polícia brasileira, entretanto, teria sido de baixo valor.

O delegado Pedro Brasil, responsável pela investigação, afirmou que o vínculo ainda é incipiente e que somente a análise dos materiais apreendidos poderá revelar se existiram outras operações ou uma relação mais profunda.

Portanto, o fato confirmado até o momento é:

existiu ao menos uma movimentação envolvendo um operador investigado;
o destinatário ou participante da transação é sancionado pelos Estados Unidos;
a extensão e a finalidade dessa relação ainda estão sob investigação.

Não há, até agora, prova pública de que PCC, CV ou TCP tenham financiado diretamente a Al-Qaeda.

O alerta envolvendo o Hezbollah

A Polícia Civil também encontrou publicações de Yasser Zayoun com símbolos e mensagens favoráveis ao Hezbollah.

O material ampliou o interesse dos investigadores sobre possíveis contatos internacionais. Porém, a própria polícia reconhece que uma postagem política ou ideológica, isoladamente, não comprova participação em atividades terroristas.

Os investigadores agora tentam verificar se as manifestações estavam acompanhadas de contatos, transferências financeiras ou serviços prestados a integrantes da organização.

Mais uma vez, o caso está em fase de apuração.

Por que a Tríplice Fronteira preocupa

Foz do Iguaçu está localizada em uma das regiões comerciais mais movimentadas da América do Sul.

A proximidade entre Brasil, Paraguai e Argentina facilita o comércio legal e o turismo, mas também cria desafios para o controle de contrabando, tráfico de drogas, circulação de armas, lavagem de dinheiro e movimentações financeiras internacionais.

Segundo a Polícia Civil, a presença de integrantes do grupo na região teria o objetivo de ampliar a circulação interestadual e internacional dos recursos investigados.

Isso não significa que toda atividade comercial na Tríplice Fronteira seja suspeita. A região abriga milhares de empresas e trabalhadores legítimos.

O problema surge quando estruturas comerciais são usadas para misturar dinheiro legal e ilegal, dificultando a identificação da verdadeira origem dos valores.

O que significa “Hawala”

A palavra hawala identifica um sistema informal de transferência de valores baseado em redes de confiança.

Nesse modelo, o dinheiro pode ser compensado entre intermediários por meio de comércio, mercadorias, dinheiro vivo ou acertos posteriores, sem necessariamente passar por uma transferência bancária tradicional.

O sistema também é utilizado legitimamente em regiões onde o acesso bancário é limitado. Entretanto, sua menor rastreabilidade pode ser explorada por redes criminosas.

O Grupo de Ação Financeira Internacional, o GAFI, divide essas redes em três categorias: tradicionais e legítimas, híbridas que podem agir sem conhecimento completo da origem dos recursos e estruturas deliberadamente criminosas.

O organismo alerta que a mistura de receitas legais e ilegais, o uso de empresas não financeiras e a circulação de valores entre diferentes países elevam o risco de lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo.

No caso brasileiro, a polícia descreve uma estrutura baseada principalmente em comércio, empresas de fachada, importações e depósitos fracionados.

Facções brasileiras já estavam no radar dos Estados Unidos

A operação ocorreu poucas semanas depois de o Departamento de Estado dos Estados Unidos designar oficialmente o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras e terroristas globais especialmente designados.

A medida foi anunciada em 28 de maio de 2026, com a inclusão das facções na lista norte-americana em junho.

Essa classificação não comprova uma ligação ideológica entre as facções e organizações como Al-Qaeda ou Estado Islâmico.

PCC e CV são estruturas movidas principalmente pelo lucro obtido com tráfico de drogas, extorsões, roubos, contrabando e lavagem de dinheiro. Já organizações terroristas costumam perseguir objetivos políticos, religiosos ou ideológicos.

A aproximação pode ocorrer não por afinidade de ideias, mas pelo compartilhamento de operadores, rotas, doleiros, empresas, documentos ou sistemas clandestinos de movimentação financeira.

É justamente essa possível convergência operacional que preocupa autoridades brasileiras e estrangeiras.

O que já está confirmado

Até o momento, as autoridades informaram os seguintes resultados:

mais de R$ 100 milhões teriam sido movimentados pelo esquema;
dez pessoas foram presas;
37 mandados de busca e apreensão foram cumpridos;
22 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público;
empresas em diferentes estados teriam sido usadas para lavar dinheiro;
integrantes de TCP, CV e PCC teriam contratado os serviços financeiros;
uma transação com um homem sancionado por apoio à Al-Qaeda foi identificada;
celulares, computadores e documentos serão submetidos a perícia.

Os investigados têm direito à defesa, e as acusações precisarão ser demonstradas durante o processo judicial.

O que ainda não está provado

Apesar de algumas manchetes tratarem o caso como uma conexão consolidada, a investigação ainda não apresentou prova pública de que:

PCC, CV ou TCP enviaram dinheiro diretamente à Al-Qaeda;
as facções mantêm uma aliança estratégica com grupos terroristas;
a transação identificada teve finalidade terrorista;
os irmãos investigados pertencem formalmente à Al-Qaeda ou ao Hezbollah;
os mais de R$ 100 milhões foram destinados ao terrorismo internacional.

A única ligação divulgada até agora é uma movimentação considerada pequena entre Reda Zayoun e Al-Maghrabi.

É um indício relevante, mas ainda não é a resposta definitiva.

O crime deixou de respeitar fronteiras

A Operação Hawala revela uma transformação silenciosa do crime organizado brasileiro.

As facções já não dependem apenas de armas, pontos de venda de drogas ou territórios dominados pela força. Elas precisam de contadores, importadores, empresários, lojas, transportadoras, contas bancárias e pessoas capazes de transformar dinheiro sujo em patrimônio aparentemente legal.

Quando uma loja de acessórios movimenta dezenas de milhões de reais e o rastro financeiro chega a um nome sancionado internacionalmente, o problema deixa de ser apenas policial.

Passa a envolver soberania, controle de fronteiras, inteligência financeira e proteção do sistema econômico.

A análise dos equipamentos apreendidos deverá mostrar se a transação foi um episódio isolado ou a porta de entrada para uma rede internacional muito maior.

Essa é a pergunta que permanece aberta:

O Brasil encontrou apenas uma movimentação suspeita ou descobriu a ponta de uma estrutura que conecta facções nacionais a operadores do terrorismo internacional?

A resposta poderá mudar a forma como o país enfrenta o crime organizado.


Você acredita que o Brasil está preparado para enfrentar organizações criminosas que já movimentam dinheiro entre diferentes estados e países? Comente sua opinião, compartilhe esta reportagem e acompanhe o PodEmFoco News para receber as próximas atualizações da Operação Hawala.

Fontes: Governo do Estado do Rio de Janeiro; Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro; Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro; Departamento do Tesouro dos Estados Unidos; Departamento de Estado dos Estados Unidos; Grupo de Ação Financeira Internacional; UOL; CNN Brasil; Brasil Paralelo; Gazeta do Povo; Estado de Minas e A Voz da Serra.

Da Redação.

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