Senador diz que taxa de 25% pune o Brasil, fortalece Lula e ameaça empresas dos dois países
Cinco minutos, uma tarifa de 25% e o Pix no centro de uma disputa que já ultrapassou a economia e entrou de vez na eleição presidencial brasileira.
O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, usou sua participação em uma audiência pública em Washington para pedir que os Estados Unidos desistam da nova sobretaxa contra produtos brasileiros.
Diante dos integrantes do comitê comercial norte-americano, o pré-candidato ao Palácio do Planalto defendeu o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, afirmou que a punição atingiria consumidores e empresas dos dois países e alertou que a medida poderia produzir justamente o efeito político contrário ao desejado por Washington: fortalecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O recado direto aos Estados Unidos
Flávio foi o primeiro expositor do segundo dia da audiência e teve cerca de cinco minutos para apresentar sua argumentação.
O senador pediu três medidas objetivas: que os Estados Unidos não imponham as tarifas, preservem o Pix e cancelem a proposta para que Brasil e EUA possam negociar.
Segundo ele, as tarifas aplicadas anteriormente não alcançaram os resultados pretendidos pelo governo Donald Trump e acabaram sendo utilizadas politicamente pelo governo Lula.
A frase central de sua manifestação foi direta: “O Pix não é um problema a ser corrigido; é uma solução.”
Atenção: não foi uma audiência no Congresso americano
A sessão não ocorreu no Congresso dos Estados Unidos.
Tratou-se de uma audiência do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, realizada no prédio da Comissão de Comércio Internacional, em Washington.
O procedimento faz parte de uma investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana. Essa legislação permite ao governo dos EUA adotar sanções contra países acusados de manter práticas consideradas discriminatórias ou prejudiciais às empresas americanas.
Por que o Pix entrou na mira de Washington?
A investigação norte-americana não se limita ao Pix. Ela aborda seis grandes temas:
comércio digital e meios de pagamento; tarifas preferenciais; combate à corrupção; propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal.
No caso dos pagamentos, o USTR sustenta que o Banco Central brasileiro ocupa simultaneamente as posições de regulador, proprietário e operador do Pix.
O órgão afirma ainda que instituições com mais de 500 mil contas são obrigadas a participar do sistema, que o Pix deve aparecer com destaque nos aplicativos bancários e que as regras de gratuidade e limitação de tarifas favoreceriam o sistema público diante de concorrentes privados.
No documento oficial, o governo dos EUA chega a classificar o Pix como um “campeão nacional” beneficiado pela regulação brasileira.
Esse é o argumento norte-americano.
Do outro lado, o governo brasileiro e representantes do setor financeiro afirmam que o Pix é uma infraestrutura pública, aberta a instituições nacionais e estrangeiras, responsável por aumentar a concorrência, reduzir custos e ampliar a inclusão bancária.
No segundo semestre de 2025, o Pix respondeu por 54,7% das transações de pagamento realizadas no país, segundo dados divulgados pelo Banco Central.
“Empresas americanas também ganharam”, diz Flávio
Durante o pronunciamento, Flávio Bolsonaro afirmou que a expansão do Pix não eliminou o crescimento das operações feitas com cartões de bandeiras norte-americanas.
Segundo o senador, cartões e pagamentos instantâneos exercem funções complementares, não sendo necessariamente concorrentes diretos em todas as modalidades.
A argumentação busca desmontar a tese de que cada transação realizada por Pix representaria automaticamente uma perda para Visa, Mastercard ou outras companhias financeiras dos Estados Unidos.
Há, porém, uma ressalva importante: os relatos disponíveis sobre a audiência não apresentam a série estatística completa utilizada por Flávio para sustentar essa comparação.
Portanto, a afirmação deve ser entendida como a tese apresentada pelo senador, e não como uma conclusão independente e definitivamente comprovada pelo comitê norte-americano.
O ponto mais explosivo: a eleição brasileira
Flávio também levou a disputa eleitoral para dentro da audiência comercial.
O senador afirmou que impor uma tarifa de 25% a poucos meses da eleição brasileira seria o “pior momento possível”, pois a medida poderia ser explorada pelo governo Lula como símbolo de defesa da soberania nacional.
Em documento enviado anteriormente ao USTR, Flávio chegou a sugerir a suspensão da medida até depois das eleições. Na audiência, entretanto, endureceu a posição e pediu o cancelamento da cobrança.
A mudança não passou despercebida.
O pedido anterior de adiamento permitia que adversários o acusassem de aceitar a tarifa, desde que ela fosse aplicada depois da votação. Ao pedir agora o cancelamento, o senador tenta afastar essa interpretação e assumir publicamente a defesa das exportações brasileiras.
Essa é uma leitura política baseada na mudança de discurso — não uma confirmação sobre as intenções pessoais do parlamentar.

O dossiê que abriu outra frente de polêmica
Antes da audiência, Flávio enviou ao governo norte-americano um documento com propostas para reduzir as tensões comerciais.
Entre os pontos divulgados estavam:
redução de custos tributários para empresas de cartões;
negociação sobre tarifas aplicadas ao etanol;
maior abertura comercial entre Brasil e Estados Unidos;
compromisso para impedir que o Pix seja integrado a sistemas transfronteiriços considerados “não ocidentais”.
O senador também defendeu maior liberdade para que o Brasil negocie acordos comerciais fora das limitações impostas pelo Mercosul.
Aqui aparece uma contradição politicamente sensível.
Flávio apresenta-se como defensor da soberania do Pix, mas admite restringir futuras conexões internacionais do sistema para atender a preocupações estratégicas de Washington.
Para os aliados, isso representa pragmatismo diplomático. Para os adversários, seria uma concessão excessiva aos Estados Unidos.
Lula reage e acusa família Bolsonaro
O presidente Lula rejeitou tanto a aplicação imediata quanto um eventual adiamento da tarifa.
Ele acusou integrantes da família Bolsonaro de tentar submeter interesses brasileiros à política externa norte-americana e classificou a proposta de adiamento como uma atitude contrária ao país.
Flávio respondeu afirmando que Lula estaria explorando o conflito para obter dividendos eleitorais e que sua viagem aos Estados Unidos tinha como objetivo evitar prejuízos às empresas brasileiras.
A discussão revela como uma investigação comercial passou a funcionar também como arma eleitoral.
Lula tenta ocupar o campo da soberania. Flávio busca apresentar-se como negociador capaz de dialogar com Trump e, ao mesmo tempo, impedir punições econômicas ao Brasil.
Governo brasileiro ficou como observador
Embora o Brasil fosse o centro da audiência, o governo federal decidiu não participar ativamente das exposições e enviou observadores.
O espaço foi ocupado principalmente por entidades empresariais e representantes de setores produtivos.
Participaram ou se inscreveram organizações como Confederação Nacional da Indústria, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Confederação da Agricultura e Pecuária, Conselho dos Exportadores de Café, entidades do setor de arroz, produtores de etanol e representantes da Embraer.
A audiência reuniu dezenas de expositores e integrantes de departamentos norte-americanos ligados a Comércio, Estado, Tesouro e Agricultura.
Quem pode pagar a conta do tarifaço?
A proposta do USTR prevê uma sobretaxa adicional de 25% sobre grande parte das mercadorias brasileiras, mas estabelece uma extensa lista de exceções.
Entre os produtos mencionados nas exceções estão determinadas categorias de carne bovina, café, metais, terras raras e componentes de aeronaves.
Mesmo com as exclusões, segmentos como calçados, pescados e parte da indústria de transformação continuariam expostos.
O efeito não ficaria restrito ao exportador brasileiro.
Quando uma matéria-prima ou produto não pode ser facilmente substituído, a tarifa também pode elevar os custos de distribuidores, indústrias e consumidores norte-americanos.
Esse foi justamente um dos principais argumentos apresentados pelo setor privado: uma tarifa não escolhe partido político — ela chega ao preço, ao emprego, ao investimento e à cadeia produtiva.
Além disso, os Estados Unidos mantêm há anos superávit no comércio de bens com o Brasil, fato usado pelo governo brasileiro e por entidades empresariais para questionar a necessidade de uma punição comercial tão ampla.
O que acontece agora?
O USTR deverá avaliar os depoimentos, documentos técnicos e pedidos de exclusão apresentados durante o processo.
A decisão sobre a resposta comercial está prevista para 15 de julho de 2026.
Até lá, o governo Trump poderá rever o alcance da medida, ampliar a lista de exceções, postergar a decisão ou manter a tarifa proposta. O pronunciamento de Flávio Bolsonaro amplia a pressão política, mas não representa garantia de mudança.
A disputa é maior que o Pix
O Pix virou o símbolo mais popular da crise, mas a investigação norte-americana é muito mais ampla.
Ela mistura comércio, regulação de plataformas digitais, decisões judiciais brasileiras, combate à corrupção, meio ambiente, propriedade intelectual e interesses geopolíticos.
Flávio conseguiu ocupar o centro do debate ao defender uma tecnologia criada durante o governo de Jair Bolsonaro e utilizada hoje por praticamente todos os setores da sociedade.
Ao mesmo tempo, colocou sua candidatura diante de uma equação delicada: manter a proximidade política com Donald Trump sem carregar o desgaste de uma tarifa impopular sobre o Brasil.
A audiência terminou. A batalha narrativa, porém, está apenas começando.
Flávio Bolsonaro agiu corretamente ao defender o Pix diretamente nos Estados Unidos ou o Brasil deveria deixar essa negociação exclusivamente nas mãos do governo federal?
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Fontes: BBC News Brasil; Reuters; Associated Press; USTR; Banco Central do Brasil; Poder360; Folha de S.Paulo e Gazeta do Povo.
Da Redação.
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