Contrato de 10 anos, decisões no STF e bastidores levantam dúvidas sobre o comando do futebol.
Um contrato de dez anos. Uma instituição ligada a um ministro do Supremo. Uma decisão judicial capaz de devolver o presidente da CBF ao cargo. E, depois, a entrada do filho do magistrado em posições relevantes do futebol brasileiro e internacional.
A sequência é explosiva. Mas ela prova que a Confederação Brasileira de Futebol tem um “dono oculto”?
Não. Pelo menos não com as evidências públicas disponíveis.
O que os documentos comprovam é uma relação comercial relevante entre a CBF e o IDP, instituição fundada por Gilmar Mendes e dirigida por seu filho, Francisco Schertel Mendes. Também está comprovado que Gilmar tomou decisões favoráveis à permanência de Ednaldo Rodrigues na presidência da entidade.
A partir daí, surgem questionamentos legítimos sobre transparência, governança, concentração de influência e possível conflito de interesses.
O documento que colocou a toga dentro do jogo
Em 16 de agosto de 2023, a CBF e o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, o IDP, assinaram um contrato para a gestão da CBF Academy, braço educacional responsável por cursos, certificações e programas de formação ligados ao futebol.
Pelo IDP, o documento foi assinado por Francisco Schertel Mendes. Pela CBF, por Ednaldo Rodrigues, então presidente da confederação.
A cláusula financeira determina que o IDP receba diretamente os pagamentos feitos pelos alunos e repasse mensalmente à CBF 16% da receita bruta obtida com os serviços educacionais.
Na prática, os 84% restantes permanecem com o instituto, que também assume custos de operação, administração, divulgação e comercialização dos cursos. Portanto, não é correto analisar os 84% como lucro líquido automático do IDP.
Outro ponto chama atenção: o contrato tem duração de dez anos, contados a partir de sua assinatura, chegando a agosto de 2033. O documento ainda prevê preferência ao IDP em uma eventual renovação, caso aceite condições equivalentes às apresentadas por outro interessado.
O primeiro exagero que precisa ser corrigido
A Revista Timeline apresentou o acordo como um “contrato de R$ 9 milhões”.
Essa definição pode induzir o leitor ao erro.
O documento não estabelece pagamento fixo de R$ 9 milhões ao IDP. A remuneração é variável e depende da receita dos cursos. O número de aproximadamente R$ 9,2 milhões aparece nas demonstrações financeiras da CBF como receita da CBF Academy em 2023, não como valor total previamente garantido pelo contrato.
A crítica à relação comercial pode ser legítima. Mas o rigor jornalístico exige diferenciar um contrato de valor fixo de um acordo baseado em participação percentual.
Os números que ainda pedem explicação
As demonstrações financeiras da CBF apresentam a seguinte evolução na rubrica “CBF Academy”:
2023: R$ 9,208 milhões;
2024: R$ 5,957 milhões;
2025: R$ 4,591 milhões.
Os valores são apresentados em milhares de reais e aparecem como receita bruta reconhecida pela própria CBF.
Aqui surge uma lacuna importante.
Como o contrato estabelece que o IDP recebe os pagamentos dos alunos e repassa 16% à CBF, não está suficientemente claro nos demonstrativos públicos se os R$ 5,957 milhões de 2024 e os R$ 4,591 milhões de 2025 representam:
todo o faturamento da CBF Academy; ou
apenas a parcela de 16% reconhecida contabilmente pela CBF.
Essa diferença muda completamente o tamanho financeiro do negócio.
Em uma conta apenas indicativa, caso os R$ 5,957 milhões correspondessem exatamente aos 16% da CBF, o faturamento bruto implícito de 2024 seria de aproximadamente R$ 37,2 milhões.
Pelo mesmo raciocínio, os R$ 4,591 milhões de 2025 indicariam faturamento bruto próximo de R$ 28,7 milhões.
Esses números, entretanto, não podem ser tratados como faturamento confirmado, porque as demonstrações publicadas não apresentam uma conciliação detalhada entre o dinheiro recebido pelo IDP, os custos operacionais e o repasse destinado à CBF.
É justamente essa ausência de clareza que exige uma prestação de contas mais completa.
Quatro meses depois, o caso chegou às mãos de Gilmar
Em 7 de dezembro de 2023, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro afastou Ednaldo Rodrigues da presidência da CBF por questionamentos envolvendo o processo eleitoral da entidade.
No dia 4 de janeiro de 2024, Gilmar Mendes concedeu uma liminar restituindo Ednaldo e os demais dirigentes aos cargos.
O ministro justificou a urgência citando o risco de o Brasil não conseguir inscrever sua seleção no Pré-Olímpico e possíveis consequências da FIFA e da Conmebol. A ação havia sido apresentada pelo PCdoB e contou com manifestações da Procuradoria-Geral da República e da Advocacia-Geral da União.
A cronologia alimentou a controvérsia:
agosto de 2023: CBF assina contrato com o IDP;
dezembro de 2023: Ednaldo é afastado pelo TJ-RJ;
janeiro de 2024: Gilmar Mendes determina seu retorno.
A proximidade das datas não prova troca de favores, corrupção ou controle da CBF. Mas cria uma questão institucional inevitável: um ministro ligado economicamente à instituição contratada pela entidade deveria julgar um processo capaz de definir quem comandaria essa mesma entidade?
Gilmar Mendes nega conflito de interesses
Gilmar reconheceu publicamente que é sócio do IDP, mas rejeitou a existência de conflito.
Segundo o ministro, a parceria seria um contrato privado, conduzido pela direção do instituto, no qual o IDP assumiu custos anteriormente suportados pela CBF Academy. Ele também afirmou que o instituto teria colocado sua reputação acadêmica a serviço da confederação.
Essa é a principal defesa do magistrado: a atividade comercial seria administrada separadamente e não teria interferido em sua atuação jurisdicional.
Até o momento, as fontes públicas consultadas não apresentam decisão judicial que tenha reconhecido ilegalidade no contrato ou declarado Gilmar impedido de atuar no processo.
Há, portanto, uma diferença fundamental entre:
uma relação comercial documentada;
uma percepção ou alegação de conflito;
e a comprovação jurídica de favorecimento.
As duas primeiras existem. A terceira não está demonstrada publicamente.
A denúncia chegou ao Senado
Em abril de 2025, o senador Eduardo Girão, do Novo do Ceará, levou o assunto ao plenário do Senado.
O parlamentar citou as revelações da revista piauí, acusou a existência de possível conflito de interesses e informou ter solicitado esclarecimentos à CBF. Girão também apresentou requerimento para ouvir Ednaldo Rodrigues na Comissão de Esporte.
A manifestação política não representa prova de irregularidade. Porém, mostra que o caso ultrapassou as páginas esportivas e passou a ser tratado como um problema de governança institucional.
A influência atribuída ao IDP dentro da CBF
Reportagem da revista piauí afirmou que pelo menos seis pessoas ligadas ou indicadas pelo IDP teriam conquistado posições na estrutura da CBF.
Entre os nomes citados estavam:
Hugo Teixeira, na chefia de gabinete;
André Mattos, na diretoria jurídica;
Valdecir de Souza, na diretoria financeira.
A reportagem atribuiu essas indicações à crescente proximidade entre o grupo ligado ao IDP e a confederação. A CBF e os envolvidos, contudo, precisam ser avaliados individualmente, pois uma ligação profissional ou acadêmica não comprova submissão política nem participação em qualquer irregularidade.
O ponto investigativo não é apenas saber onde essas pessoas trabalharam.
A pergunta central é: quais foram os critérios técnicos, os processos de seleção e os mecanismos de prevenção de conflitos utilizados pela CBF?
O filho do ministro avança no mundo da bola
Francisco Schertel Mendes deixou de aparecer somente como diretor do IDP e signatário do contrato da CBF Academy.
Em 2 de dezembro de 2025, ele foi eleito vice-presidente da Federação Mato-Grossense de Futebol.
Francisco também integra a Comissão Disciplinar da FIFA, conforme relação divulgada pela própria CBF em dezembro de 2025.
Essas funções são formais e documentadas.
Elas não provam que Francisco controle a CBF. Mostram, entretanto, que sua atuação ultrapassou o setor acadêmico e passou a ocupar espaços concretos na estrutura política e disciplinar do futebol.
A frase sobre Neymar: explosiva, mas sem prova pública
Uma coluna atribuída ao jornalista Lauro Jardim e repercutida por outros veículos afirmou que Francisco teria dito, durante um evento, a frase:
“Quem convocou o Neymar fui eu.”
A declaração sugeriria influência direta sobre decisões da Seleção Brasileira.
Nas fontes públicas consultadas, porém, não foi apresentada gravação, documento oficial ou confirmação independente que permita tratar essa declaração como fato comprovado.
Por isso, o episódio deve permanecer classificado como relato jornalístico ainda não corroborado por prova pública.
Usar a frase como certeza seria sensacionalismo irresponsável. Investigar sua origem e cobrar explicações é jornalismo.
Ednaldo caiu novamente — e a CBF mudou de comando
Em maio de 2025, Ednaldo Rodrigues voltou a ser afastado pela Justiça do Rio.
O processo envolvia suspeita de falsificação da assinatura do ex-presidente Antônio Carlos Nunes de Lima em um acordo judicial e dúvidas sobre sua capacidade cognitiva no momento da assinatura. Fernando Sarney assumiu temporariamente com a missão de organizar novas eleições.
Ednaldo desistiu posteriormente de tentar retornar ao cargo.
Em 25 de maio de 2025, Samir Xaud foi eleito presidente da CBF para o período de 2025 a 2029.
A mudança de presidente, entretanto, não encerrou as dúvidas sobre o contrato, que foi firmado por dez anos e pode continuar produzindo efeitos até 2033.
O que está comprovado
O contrato entre CBF e IDP existe.
O IDP recebe os pagamentos dos cursos e deve repassar 16% da receita bruta à CBF.
O acordo tem vigência de dez anos.
Gilmar Mendes é ligado ao IDP e decidiu pela volta de Ednaldo Rodrigues à presidência da confederação.
Francisco Mendes assinou o contrato, tornou-se vice-presidente da Federação Mato-Grossense e integra uma comissão da FIFA.
Esses são fatos documentados.
O que permanece como alegação
Não está comprovado publicamente que Gilmar Mendes seja o “dono” da CBF.
Não está comprovado que decisões judiciais tenham sido negociadas em troca do contrato.
Não está comprovado que Francisco Mendes controle convocações da Seleção Brasileira.
Também não está comprovado que todos os profissionais ligados ao IDP tenham sido nomeados por interferência pessoal do ministro ou de seu filho.
Essas hipóteses podem e devem ser investigadas, mas não podem ser publicadas como sentenças definitivas.
Cinco perguntas que a CBF ainda precisa responder
1. Qual foi o faturamento bruto total da CBF Academy em 2024 e 2025?
2. Quanto ficou efetivamente com o IDP depois dos custos operacionais?
3. Como o instituto foi escolhido e quais outras instituições apresentaram propostas?
4. Quais regras de integridade foram adotadas diante da relação de Gilmar Mendes com o IDP?
5. A gestão de Samir Xaud revisou o contrato e sua estrutura de governança?
A divulgação dessas respostas encerraria especulações ou confirmaria a necessidade de uma investigação mais profunda.
A CBF tem dono?
A frase é poderosa, provoca indignação e conquista cliques.
Mas, no estágio atual das evidências, ela é uma interpretação editorial — não um fato comprovado.
O que existe é uma rede de relações entre futebol, negócios, Justiça e poder político que merece escrutínio permanente.
Defender transparência não significa atacar o STF, a CBF ou qualquer pessoa. Significa exigir que instituições com enorme impacto nacional adotem padrões de integridade compatíveis com sua influência.
No futebol, o torcedor aceita perder uma partida.
O que ele não aceita é descobrir que o jogo pode estar sendo decidido em uma sala onde ninguém consegue enxergar quem está com a bola.
Para você, Gilmar Mendes deveria ter se declarado impedido de julgar processos envolvendo a CBF?
Comente sua opinião, compartilhe esta investigação e envie a matéria para quem acredita que o futebol brasileiro precisa de mais transparência.
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Fontes: Revista Timeline; Confederação Brasileira de Futebol; Supremo Tribunal Federal; Senado Federal; UOL; GE; Reuters; Correio Popular; Poder360; CBN Cuiabá e IDP.
Da Redação.
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