Polícia Civil do Rio vê cartel transnacional no CV e mira bilhões do crime organizado.
Por Rodrigo Santos Dias
Atualizado em 4 de maio de 2026
O Brasil pode estar diante de uma mudança perigosa no crime organizado: facções que antes eram tratadas como grupos locais de tráfico agora são descritas por autoridades do Rio de Janeiro como estruturas com atuação nacional, conexões internacionais, poder financeiro bilionário e lógica de cartel.
A declaração mais forte veio do secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Felipe Curi, que passou a defender publicamente que facções como o Comando Vermelho sejam tratadas como organizações “narcoterroristas”. Em outubro de 2025, após a Operação Contenção nos complexos do Alemão e da Penha, Curi afirmou que o enfrentamento ao crime exige mobilização nacional e atualização da legislação penal para responder “à altura da ameaça”.
A fala reacendeu uma pergunta incômoda: o Estado brasileiro está medindo corretamente o tamanho do inimigo?
O crime deixou de ser apenas territorial
Durante décadas, o imaginário popular associou facções ao controle armado de comunidades, bocas de fumo e disputas por território. Mas investigações recentes apontam uma estrutura muito mais ampla.
Em março de 2026, uma operação no Rio revelou, segundo reportagem da CNN Brasil, indícios de que o Comando Vermelho teria desenvolvido uma organização em formato de cartel, com conselhos de comando, articulação interestadual e sinais de cooperação com outras organizações criminosas.
O ponto central é este: quando uma facção opera em vários estados, movimenta dinheiro por empresas de fachada, articula rotas e influencia cadeias econômicas ilegais, ela deixa de ser apenas um problema de polícia local. Passa a ser uma ameaça de segurança pública nacional.
A guerra também está no sistema financeiro
A Polícia Civil do Rio passou a mirar um ponto decisivo: o dinheiro.
Segundo publicação oficial do Governo do Estado do Rio de Janeiro, a Polícia Civil pediu à Justiça o bloqueio de mais de R$ 12 bilhões em bens e valores ligados a organizações criminosas. Apenas no âmbito da chamada Operação Contenção, os pedidos envolvendo suspeitos ligados ao Comando Vermelho somariam cerca de R$ 7 bilhões, atingindo empresas de fachada, contas bancárias, bens de alto valor e estruturas usadas para lavagem de dinheiro e financiamento de atividades criminosas.
Esse dado muda a leitura do problema. A facção não sobrevive apenas pela arma na mão. Ela se fortalece quando transforma dinheiro ilegal em patrimônio, empresa, influência e capacidade de expansão.
Em outras palavras: enquanto a polícia sobe o morro, parte do crime pode estar descendo para o sistema financeiro.
O Brasil já tem dezenas de organizações criminosas mapeadas
Veja o vídeo:
Ver essa foto no Instagram
O problema não está restrito ao Rio.
A Secretaria Nacional de Políticas Penais, ligada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, divulgou o Mapa das Organizações Criminosas 2024, estudo que analisa a presença de grupos criminosos a partir do sistema prisional.
Reportagens baseadas nesse levantamento apontaram a identificação de 88 facções atuantes entre 2022 e 2024, com presença em milhares de pavilhões prisionais. O levantamento também destacou que PCC e Comando Vermelho são as organizações de maior alcance, com atuação em nível nacional e internacional.
Esse é o ponto mais grave: o crime organizado brasileiro já não depende apenas da geografia de uma cidade. Ele se espalha por redes, rotas, prisões, fronteiras, portos, comunidades e sistemas de lavagem de dinheiro.
“Narcoterrorismo”: termo técnico ou alerta político?
A classificação de facções como “narcoterroristas” divide especialistas, autoridades e políticos.
De um lado, integrantes da segurança pública defendem que a palavra descreve melhor a realidade de grupos armados que controlam territórios, intimidam comunidades, enfrentam o Estado e financiam suas atividades com tráfico, extorsão e lavagem de dinheiro.
De outro, juristas e pesquisadores alertam que, pela legislação brasileira atual, crime organizado e terrorismo são categorias jurídicas distintas. A Lei Antiterrorismo brasileira, Lei nº 13.260/2016, disciplina os crimes de terrorismo, mas o enquadramento de facções nessa categoria ainda é objeto de disputa legislativa e interpretação jurídica.
A Câmara dos Deputados chegou a avançar em propostas sobre o tema. Em abril de 2026, a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional aprovou proposta que classifica PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, junto a cartéis latino-americanos. O texto ainda altera leis sobre terrorismo e organizações criminosas, mas precisa seguir tramitação legislativa.
Ou seja: no debate público, o termo já explodiu. No campo jurídico, a briga ainda está aberta.
O risco do “negacionismo estatal”
A crítica de Felipe Curi a autoridades que resistem a reconhecer a dimensão do problema toca em uma ferida institucional.
Se o Estado chama de “facção local” uma estrutura que age como rede nacional, erra no diagnóstico. E quem erra no diagnóstico também erra no remédio.
Negar a sofisticação financeira, a expansão territorial e a capacidade de articulação desses grupos pode gerar três efeitos perigosos:
1. Resposta policial menor que a ameaça
Quando o crime atua em rede e o Estado responde de forma fragmentada, a facção ganha tempo, território e dinheiro.
2. Lavagem de dinheiro avançando sem ruído
O confronto armado chama atenção. Mas o dinheiro lavado em empresas, bens e contas pode passar muito mais silenciosamente.
3. Comunidades abandonadas entre dois poderes
Nas áreas mais vulneráveis, moradores convivem com intimidação, domínio territorial e imposição de regras por grupos armados. É ali que a ausência do Estado legítimo vira presença do crime.
A Operação Contenção e a disputa de narrativas
A Operação Contenção, realizada em outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, entrou para a história como uma das ações policiais mais letais do país. O governo do Rio afirmou que a operação mirava o avanço do Comando Vermelho e mobilizou cerca de 2.500 agentes.
A ação teve forte apoio de setores da segurança pública, mas também gerou críticas de organizações de direitos humanos e questionamentos sobre a letalidade da operação. A Reuters registrou que a ação deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais, e provocou cobranças por investigação e coordenação entre governos.
Esse é o ponto de equilíbrio jornalístico: reconhecer a gravidade do crime organizado não elimina a necessidade de fiscalização, investigação e legalidade nas ações do Estado. Uma coisa não anula a outra.
O que está em jogo agora
A discussão sobre narcoterrorismo não é apenas uma briga de palavras.
É uma disputa sobre o tipo de resposta que o Brasil dará ao crime organizado nos próximos anos.
Se as facções forem tratadas apenas como quadrilhas locais, o enfrentamento seguirá limitado. Se forem tratadas como redes econômicas, territoriais e transnacionais, a resposta terá que envolver inteligência financeira, cooperação entre estados, controle de fronteiras, investigação patrimonial, sistema prisional, Ministério Público, Judiciário e forças policiais integradas.
O maior erro seria reduzir tudo a slogan político.
O país precisa responder a três perguntas com urgência:
Quem financia essas facções?
Onde o dinheiro é lavado?
Quais estruturas permitem que o crime armado vire poder econômico?
Enquanto essas respostas não forem dadas com transparência, o crime continuará fazendo o que sabe fazer melhor: ocupar os espaços que o Estado abandona.
A fala de Felipe Curi colocou o debate em outro patamar. Chamar facções de “narcoterroristas” pode ser juridicamente controverso, mas ignorar a evolução do crime organizado é politicamente perigoso.
O Brasil não enfrenta apenas homens armados em vielas. Enfrenta redes que movimentam bilhões, lavam dinheiro, atravessam fronteiras e desafiam a autoridade do Estado.
A pergunta que fica é direta: o poder público está disposto a admitir o tamanho real do problema ou continuará tratando uma estrutura nacional como se fosse apenas uma ocorrência local?
Você acha que facções como PCC e Comando Vermelho devem ser tratadas como organizações terroristas ou o Brasil precisa criar uma categoria própria para enfrentar esse tipo de crime?
Comente sua opinião e acompanhe o Podem Foco News para entender os bastidores da segurança pública no Brasil.
Fontes: Governo do Estado do Rio de Janeiro, Poder360, CNN Brasil, Secretaria Nacional de Políticas Penais, Câmara dos Deputados, Planalto e Reuters.
Da Redação.
About The Author
Descubra mais sobre PodEmFocoNews
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.







