Cuba: o choque na ONU e os 1.281 presos políticos

Ilustração editorial da bandeira de Cuba diante da Assembleia Geral da ONU, com pessoas atrás de grades simbolizando a prisão política. A composição destaca o título "Cuba: o choque na ONU e os 1.281 presos políticos", abordando as tensões diplomáticas e as denúncias de violações dos direitos humanos no país.
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Ex-presos, diplomatas e acusações cruzadas: o que EUA e Havana disputam antes da votação do embargo

Cuba foi alvo, em 19 de outubro de 2026, de um encontro dos Estados Unidos na ONU sobre tortura e perseguição a opositores. Havana acusa Washington de usar a organização para atacá-la e culpa o embargo pela crise. O embate antecede em uma semana a votação anual do tema.

Quando um embaixador americano reúne ex-presos políticos dentro da ONU e o representante de Cuba responde mobilizando outros diplomatas para protestar, o episódio deixa de ser protocolo e vira disputa aberta por narrativa. De um lado, Washington diz que Havana usa o embargo como desculpa para esconder repressão. Do outro, o governo cubano afirma que os EUA aplicam punição coletiva à população.

Segundo a Gazeta do Povo, o evento foi organizado pelo embaixador Mike Waltz e reuniu o opositor José Daniel Ferrer e o artista Luis Manuel Otero Alcántara. No mesmo período, a ONG Prisoners Defenders contabilizou 1.281 presos políticos na ilha em maio de 2026, o maior número já registrado, de acordo com o Diario Las Américas.

A seguir, o que está documentado, o que é denúncia e o que é disputa política, com a versão dos dois lados e o que está em jogo na votação de 27 e 28 de outubro.

O que aconteceu na ONU: o encontro “Cuba Livre”

Quem organizou e quem falou

O encontro ocorreu na segunda-feira (19), na sede da ONU, em Nova York. Mike Waltz, embaixador dos EUA na organização, conduziu a sessão. Foram exibidas imagens de cubanos sendo detidos e apresentados relatos de pessoas que dizem ter sido torturadas por criticar o governo.

Ferrer lidera a União Patriótica de Cuba e já foi preso político. Otero Alcántara também foi preso pelo governo cubano. A pauta incluiu ainda especialistas que discutiram denúncias de trabalho forçado nas missões médicas cubanas no exterior e suspeitas de corrupção entre integrantes do governo.

Waltz acusou Havana de usar o embargo econômico como justificativa para os problemas da ilha. Pediu também que outros países não apoiem a resolução que Cuba apresenta todos os anos à Assembleia Geral. Segundo ele, diplomatas cubanos tentaram intimidar e filmar os ex-presos que participaram. Essa é uma acusação do lado americano, e a cobertura da Gazeta do Povo não traz uma resposta específica de Havana sobre ela.

O revide de Havana

O embaixador cubano na ONU, Ernesto Soberón Guzmán, reuniu diplomatas de outros países para protestar contra o evento. Chegou a discutir com Waltz quando o americano deixava o local. Segundo a Gazeta do Povo, acusou Washington de agir fora da lei internacional e de aplicar punição coletiva ao povo cubano.

O choque não é isolado. Em julho, numa sessão especial da Assembleia Geral, o chanceler Bruno Rodríguez chamou Waltz de mentiroso, conforme noticiou o jornal dominicano El Caribe. O americano respondeu exibindo fotos de artistas presos na ilha.

Na ocasião, Waltz argumentou que a ajuda humanitária chega a Cuba por meio da Cáritas, da União Europeia, do México, da China e da própria ONU. Na leitura dele, isso contradiria a ideia de um bloqueio total.

Por que o momento importa

O confronto veio uma semana antes da votação anual da Assembleia Geral sobre a resolução que pede o fim do embargo, marcada para 27 e 28 de outubro. No ano passado, o texto recebeu 165 votos favoráveis, sete contrários e 12 abstenções. A resolução é aprovada por ampla maioria desde 1992.

Dado-chave: a resolução da ONU contra o embargo não obriga Washington a suspender sanções. A decisão depende do Congresso americano.

Denúncias de tortura e presos políticos: o que os números mostram

Os dados da Prisoners Defenders

A principal fonte numérica sobre presos por motivação política em Cuba é a Prisoners Defenders, ONG com sede em Madri que publica relatórios mensais. Em maio de 2026, a organização registrou 1.281 presos políticos, novo recorde, e alertou para o agravamento da repressão em meio à crise econômica.

A evolução recente, segundo os relatórios da ONG divulgados por EFE, Lusa e outros veículos:

ReferênciaPresos políticosObservação
Dezembro de 20251.197Balanço anual divulgado em 15 de janeiro de 2026
Janeiro de 20261.207762 em prisões; os demais em campos de trabalho ou outros locais
Março de 20261.25044 novos casos, 21 deles detidos em Havana durante protestos
Abril de 20261.260Inclui menores presos após protestos em Morón
Maio de 20261.281Novo recorde histórico

Os números variam conforme o critério. Alguns relatórios contam apenas quem está em celas. Outros incluem quem cumpre pena em campos, em prisão domiciliar ou sob medidas cautelares. Ao cruzar os relatórios, a tendência de alta aparece em todas as séries, mesmo quando o valor absoluto muda.

Tortura: o que a ONG documenta

A Prisoners Defenders afirma ter identificado ao menos 15 padrões de maus-tratos e tortura nas prisões cubanas. Entre eles estão agressões físicas, privação de sono, posições forçadas e ameaças permanentes. O balanço de 2025 aponta ainda 219 manifestantes condenados por sedição, com penas médias de dez anos.

A organização também registra seis mortes de presos políticos sob custódia desde 2023. Um dos casos é o de Lázaro García Ríos, que morreu em 22 de janeiro de 2026, quando cumpria pena de 20 anos.

Em relatório de junho, a ONG contou 40 presos políticos detidos quando eram menores, o maior número já documentado por ela. A idade mínima penal na ilha é de 16 anos, segundo a agência Lusa.

O que o governo cubano responde

O governo rejeita o enquadramento de perseguição política. Em transmissão da TV estatal, o apresentador Humberto López afirmou que em Cuba não se perseguem opositores. Havana também sustenta que o foco americano nos direitos humanos serve para desviar a atenção dos efeitos do embargo.

Nota de rigor: a Prisoners Defenders é uma ONG crítica ao governo cubano. Em relatórios anteriores, ela extrapolou resultados de amostras de testemunhos para estimar a escala da tortura. Isso torna os números estimativas de uma fonte, e não sentenças judiciais. A verificação independente é limitada.

Anistias anunciadas e o que a ONG contesta

Em março, Havana anunciou a libertação de 51 presos sob os auspícios do Vaticano. Segundo a Prisoners Defenders, apenas 27 eram presos políticos. Em abril, o governo iniciou um “indulto humanitário” de 2.010 reclusos. Para a ONG, nenhum deles era preso por motivos políticos.

O caso mostra por que os números oficiais e os das ONGs raramente coincidem. O governo fala em presos comuns beneficiados por clemência. A ONG fala em exclusão deliberada de quem foi condenado por protestar.

A versão de Havana e a disputa sobre o embargo

Dois relatos sobre a mesma crise

O debate sobre Cuba na ONU gira em torno de uma pergunta de causalidade: o que explica a escassez de comida, remédios e energia? Cada lado dá uma resposta diferente.

PontoPosição dos EUAPosição de Havana
Causa da criseFracasso do sistema comunistaEmbargo e bloqueio petrolífero
EmbargoTem exceções para alimentos, remédios e ajuda humanitáriaPunição coletiva ao povo cubano
Direitos humanosTortura, presos políticos e trabalho forçadoNega perseguição e acusa Washington de instrumentalizar a ONU
DiálogoPressão máximaAberto, mas “sem precondições” e “em posição de iguais”, segundo Díaz-Canel

O que é o embargo dos EUA a Cuba? É o conjunto de sanções econômicas, comerciais e financeiras impostas pelos Estados Unidos à ilha há mais de seis décadas. Washington diz que ele prevê exceções humanitárias. Havana o chama de bloqueio e o responsabiliza pelas privações da população.

O que diz a própria ONU

Há um ponto que costuma ficar de fora das coberturas. A ONU é palco das denúncias americanas, mas também critica uma medida recente de Washington. Segundo a agência EFE, reproduzida pelo El Caribe, o alto comissário de direitos humanos, Volker Türk, afirmou que o cerco petrolífero empurra o país ao limite do colapso. O Escritório de Direitos Humanos da ONU o classificou como contrário ao direito internacional.

Três relatores especiais da organização foram além e disseram que medidas de bloqueio desse tipo podem configurar punição coletiva de civis. Os EUA contestam essa leitura. Tratar apenas uma das posições seria incompleto: a ONU cobra Cuba por direitos humanos e também questiona a pressão energética americana.

Crise energética em Cuba: o que é fato e o que é disputa

Os fatos que a imprensa internacional confirma

A ilha vive uma crise energética desde meados de 2024. Em 2026, ela se agravou: segundo a AFP, o apagão nacional de 2 de agosto foi o sexto do ano e o 11º desde o fim de 2024. Na manhã seguinte, só 23,1% dos usuários de Havana tinham eletricidade.

Em julho, a AFP relatou cortes diários de 24 horas na capital e superiores a 70 horas no interior. A economia estatal, segundo a EFE, contraiu 15% entre 2020 e 2025, e o descontento aparece em panelaços quase diários.

Curiosidade de alto valor: o último petroleiro com crude estrangeiro citado pela EFE, o russo Anatoli Kolodkin, trouxe cerca de 730 mil barris em 31 de março. Foi suficiente para apenas duas semanas de demanda em abril.

Onde a explicação se divide

Em 29 de janeiro, o presidente Donald Trump ordenou impedir que outros países enviem petróleo à ilha, segundo o jornal colombiano El Universal. Desde então, os geradores distribuídos, que respondiam por cerca de 40% da matriz elétrica, estão parados por falta de combustível, como reconheceu o próprio governo.

A EFE lembra que esses geradores já tinham problemas antes de 2026 por falta de divisas. Economistas independentes citados pela agência apontam subinvestimento crônico no setor, controlado pelo Estado desde 1959. Recuperar o sistema elétrico exigiria entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões, valor fora do alcance da ilha.

Em resumo, as fontes convergem em dois pontos. Há falhas estruturais antigas na rede cubana, e a pressão americana de 2026 agravou o quadro. O que muda de um lado para o outro é o peso atribuído a cada causa.

Reformas e oferta de ajuda

Em junho, Cuba anunciou reformas de livre mercado para tentar reativar a economia, segundo a AFP. Washington, por sua vez, reiterou a oferta de US$ 100 milhões em ajuda à ilha, noticiou a mesma agência. O governo cubano responde que o problema central é o “bloqueio” energético.

Cuba: o choque na ONU e os 1.281 presos políticos
Cuba: o choque na ONU e os 1.281 presos políticos

Raúl Castro, negociações e a pressão de Washington

A acusação formal

A pressão americana não se limita à diplomacia. Segundo o Departamento de Justiça da Flórida, o procurador-geral James Uthmeier e autoridades federais anunciaram em 20 de maio de 2026 a acusação contra Raúl Castro pela morte de quatro voluntários da organização Irmãos ao Resgate, em 1996.

De acordo com a acusação, Castro, então ministro das Forças Armadas, autorizou a cadeia de comando que terminou com caças disparando mísseis contra aeronaves civis em águas internacionais. A denúncia foi emitida por um grande júri federal em 23 de abril e tornada pública em 20 de maio, segundo o Cubanet. A Promotoria do Distrito Sul da Flórida o considera foragido e diz haver mandado de prisão ativo contra ele.

Castro, hoje com 94 anos, não se apresentou à Justiça americana. Vale lembrar que se trata de acusação formal, e não de condenação, e que Havana rejeita a iniciativa como parte da hostilidade de Washington.

Negociações: sinais contraditórios

O quadro diplomático oscilou ao longo do ano. Segundo a AP, o presidente Trump prometeu orquestrar uma “tomada amistosa” da ilha. A AFP associa a deterioração das relações à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, aliado de Havana.

Díaz-Canel chegou a confirmar conversas com representantes americanos, facilitadas por “fatores internacionais” não identificados. Em outro momento, disse que só existiam contatos técnicos na área migratória e que não há negociação formal. Em abril, afirmou que sem termos cubanos não haveria acordo.

Nesse cenário, o encontro da ONU é mais um movimento de pressão pública. Também funciona como tentativa de moldar a votação do embargo, que costuma ser vista como termômetro do isolamento de cada lado.

Votação do embargo: o que observar em 27 e 28 de outubro

O que acontece se a ONU aprovar a resolução contra o embargo? Nada de automático. O texto é recomendatório, sem força jurídica obrigatória, e as sanções dependem do Congresso americano. O peso é político: mostra quantos países ainda acompanham Havana na condenação ao embargo.

Quatro indicadores ajudam a medir o resultado:

  1. Votos contrários: se passarem dos sete registrados no ano passado, o esforço americano terá avançado.
  2. Abstenções: o total de 12 do ano passado é o parâmetro; aumento indicaria países em dúvida.
  3. Discursos de aliados de Washington: mostram se a agenda de direitos humanos ganhou espaço no plenário.
  4. Reação de Havana e novos relatórios: a Prisoners Defenders publica dados mensais, e novas cifras podem alterar o tom do debate.

O que ainda não sabemos

Há lacunas relevantes. Não há verificação independente consolidada da maior parte das denúncias de tortura, que vêm de ONGs, familiares e ex-presos, enquanto o governo cubano nega perseguição política. Também não está claro se as conversas bilaterais evoluem ou se a pressão se transforma em medidas mais duras.

Separar fato, denúncia e opinião é o único caminho para ler essa disputa sem ser capturado por nenhuma das narrativas.

Leia também: EUA contra Maduro: 5 fatos sobre acusações de tortura

ONU

O que se viu na ONU em 19 de outubro resume o impasse em torno de Cuba. Os EUA levaram ex-presos políticos e imagens de detenções ao centro do debate. Havana respondeu acusando Washington de punição coletiva. Os dados da Prisoners Defenders, com recorde de 1.281 presos políticos em maio, sustentam a preocupação com os direitos humanos. A crise energética, por sua vez, é produto de fragilidades antigas e de pressões mais recentes.

Acompanhe a votação de 27 e 28 de outubro e volte para conferir o desfecho. Se este conteúdo ajudou, compartilhe e deixe sua opinião nos comentários. Explore outras matérias da editoria Mundo para entender como a disputa em torno de Cuba pode se desdobrar.

Leia também: Colômbia recebe drones dos EUA: 5 impactos da ofensiva

Aviso Importante

As informações deste artigo têm caráter informativo e jornalístico, baseadas em fontes públicas disponíveis até 19 de outubro de 2026. Denúncias atribuídas a organizações, governos e testemunhas não equivalem a decisões judiciais. As acusações formais contra pessoas citadas, como Raúl Castro, não representam condenação, e vale a presunção de inocência. Situações envolvendo direitos legais devem ser avaliadas por advogado habilitado.


A votação do embargo a Cuba acontece em 27 e 28 de outubro. Quem tem razão nessa disputa? Comente, compartilhe com quem acompanha o tema e siga o Podem Foco para não perder o desfecho.

Fontes:

Gazeta do Povo; Prisoners Defenders; Diario Las Américas; EFE; AFP; AP; Lusa; Cubanet; Departamento de Justiça da Flórida; El Caribe; El Universal; Diario de Cuba; Telemundo 51

Da Redação.


Perguntas frequentes sobre Cuba

O que os EUA denunciaram sobre Cuba na ONU?

Em 19 de outubro de 2026, os EUA reuniram dissidentes e ex-presos políticos na sede da ONU para denunciar tortura, perseguição e violações de direitos humanos pelo governo cubano. O evento também abordou trabalho forçado em missões médicas e suspeitas de corrupção. Havana acusou Washington de usar a ONU para atacá-la.

Quantos presos políticos existem em Cuba?

Segundo a Prisoners Defenders, Cuba tinha 1.281 presos políticos em maio de 2026, recorde da série histórica da ONG. Os números variam conforme o critério usado: nem todos estão em celas, e alguns cumprem pena em campos ou sob medidas cautelares. O governo cubano nega perseguição política.

O governo de Cuba nega as acusações de tortura?

Sim. O governo cubano rejeita o enquadramento de perseguição política, e um apresentador da TV estatal afirmou que não há perseguição a opositores. As denúncias de tortura vêm principalmente de ONGs como a Prisoners Defenders, de familiares e de ex-presos, e não têm verificação independente consolidada.

A resolução da ONU contra o embargo obriga os EUA a suspender sanções?

Não. A resolução anual da Assembleia Geral é recomendatória e não tem força jurídica obrigatória. As sanções americanas a Cuba dependem de decisão do Congresso dos EUA, de acordo com a Gazeta do Povo. O efeito é político, e não prático.

Quando será a votação sobre o embargo a Cuba?

A Assembleia Geral da ONU deve votar a resolução anual sobre o embargo a Cuba nos dias 27 e 28 de outubro de 2026. No ano passado, o texto teve 165 votos favoráveis, sete contrários e 12 abstenções. A resolução é aprovada desde 1992.

Por que Cuba tem tantos apagões?

Fontes como EFE e AFP apontam dois fatores combinados: um sistema elétrico obsoleto e subfinanciado há décadas e, desde janeiro de 2026, a pressão americana que impede a chegada de petróleo à ilha. O governo cubano atribui a crise principalmente ao bloqueio, enquanto especialistas independentes apontam também falhas estruturais.

De que Raúl Castro é acusado nos EUA?

Raúl Castro foi acusado por um grande júri federal pela morte de quatro voluntários da organização Irmãos ao Resgate, no abate de aeronaves civis em 1996. Ele era ministro das Forças Armadas na época. A acusação não é condenação, e Havana rejeita a iniciativa.

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