A fé por trás da Korin que o Brasil não conhecia

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A fé por trás da Korin que o Brasil não conhecia. Uma igreja japonesa, um ritual pelos animais e um modelo que desafiou a indústria por 30 anos.

Korin. O nome está nas embalagens de frango, ovos, arroz, mel e outros produtos vendidos nos principais supermercados brasileiros. Mas uma parte importante de sua história ainda é desconhecida por muitos consumidores: a empresa nasceu de uma filosofia religiosa japonesa e continua ligada à Igreja Messiânica Mundial.

Em Ipeúna, no interior de São Paulo, funcionários, diretores e trabalhadores da fábrica participam anualmente de uma cerimônia de agradecimento pelos animais abatidos. Durante o ritual, realizado tradicionalmente no mês de agosto, são feitas orações em memória das aves que serviram de alimento aos consumidores.

Pode parecer apenas uma tradição espiritual. Mas foi justamente essa fé que ajudou a criar um dos modelos mais incomuns — e hoje mais valorizados — da avicultura brasileira.

A religião por trás da Korin

A religião por trás da Korin é a Igreja Messiânica Mundial, fundada no Japão, em 1935, pelo religioso e pensador Mokiti Okada, conhecido pelos seguidores como Meishu-Sama, expressão traduzida como “Senhor da Luz”.

Okada defendia que a transformação da humanidade passaria por três caminhos principais: o cultivo do belo, representado por práticas como o ikebana; o Johrei, realizado pela imposição das mãos; e a chamada Agricultura Natural.

Para a filosofia messiânica, o solo não é apenas uma matéria-prima. Ele possui uma força própria e deve ser tratado como um organismo vivo, sem dependência excessiva de fertilizantes químicos, agrotóxicos ou outros elementos artificiais.

A própria Korin afirma que sua missão envolve a construção de um “mundo ideal”, integrando as dimensões física, mental e espiritual do ser humano. A expressão “energia vital”, frequentemente utilizada pela companhia, faz parte dessa visão filosófica e religiosa.

Crença religiosa não é certificação científica

Aqui está uma distinção fundamental.

A chamada “energia vital” é uma crença vinculada aos ensinamentos de Mokiti Okada. Ela não constitui um critério científico ou uma exigência legal para que um alimento seja considerado orgânico.

No Brasil, o uso do selo de produto orgânico depende do cumprimento das regras estabelecidas pelo poder público, da rastreabilidade da produção e de mecanismos formais de controle e certificação.

Em outras palavras: a fé explica a origem do modelo da Korin, mas são as auditorias, os protocolos produtivos e as certificações que sustentam as alegações colocadas nas embalagens.

O consumidor pode consultar as regras da produção orgânica no portal do Ministério da Agricultura e Pecuária.

Como a Korin saiu de um sítio para os supermercados

A experiência que daria origem à Korin começou durante a década de 1970, em uma propriedade rural de Atibaia. Ali, seguidores da Igreja Messiânica produziam hortaliças e criavam animais principalmente para o próprio consumo.

Com o crescimento do projeto, a produção foi transferida para Ipeúna.

A Korin foi formalmente fundada em 1994 por Tetsuo Watanabe, então uma das principais lideranças da Igreja Messiânica no Brasil. A proposta era transformar os ensinamentos sobre Agricultura Natural em uma operação comercial capaz de chegar às famílias brasileiras.

Legenda da foto,Tanto o frango quanto os ovos da Korin são produzidos por parceiros selecionados que passam por rigorosas auditorias. Vitor Serrano/BBC

Naquele momento, falar em frangos criados sem antibióticos, com menor concentração de aves e alimentação controlada parecia uma aposta quase irracional para parte da indústria.

Segundo Edson Matsui, presidente do Grupo Korin, a empresa chegou a ser tratada como “irresponsável” por concorrentes e profissionais que acreditavam que a ausência desses medicamentos provocaria problemas sanitários.

Três décadas depois, a Korin possui aproximadamente 300 produtos em seu portfólio. O frango continua sendo seu principal negócio e representa, segundo informações prestadas pela companhia à BBC News Brasil, cerca de 70% do faturamento.

O frango da Korin é realmente diferente?

A Korin trabalha com produtores parceiros localizados principalmente nas proximidades de Ipeúna.

A companhia fornece pintinhos, acompanhamento técnico, assistência veterinária e a ração utilizada na criação. As propriedades passam por auditorias para verificar aspectos como alimentação, biossegurança, densidade de aves, rastreabilidade e bem-estar animal.

Na linha orgânica, os frangos são alimentados com milho e soja orgânicos, têm acesso a áreas externas e são criados em propriedades certificadas.

A Korin também recebeu certificações ligadas ao bem-estar animal. A organização Certified Humane Brasil afirma que a empresa se tornou, em 2009, a primeira do país a alcançar uma certificação desse tipo em sua produção.

Os critérios e o histórico podem ser consultados no cadastro da Certified Humane Brasil e na página de certificações da Korin.

Orgânico, natural e livre de antibióticos não são sinônimos

‘A Korin não tem condições de produzir alimentos dentro desse modelo para o mundo inteiro’, afirma Edson Matsui, presidente do grupo. Vitor Serrano/BBC

O consumidor precisa prestar atenção às embalagens.

Frango orgânico: segue normas específicas de produção orgânica, com ingredientes certificados, controle de insumos e auditorias.

Frango livre de antibióticos: indica que esses medicamentos não foram utilizados de acordo com o protocolo informado e certificado, mas isso não torna automaticamente o produto orgânico.

Frango alimentado sem transgênicos: refere-se à composição da alimentação das aves, sendo uma característica diferente da certificação orgânica.

Portanto, nem todo produto da Korin é orgânico. A companhia comercializa linhas diferentes, com protocolos, características e preços distintos.

O preço que limita a expansão da Korin

O modelo custa mais caro.

Edson Matsui afirma que a alimentação representa entre 60% e 70% dos custos de produção das aves. A utilização de grãos não transgênicos e, na linha orgânica, de matérias-primas certificadas, aumenta significativamente a despesa.

Segundo o executivo, o frango orgânico da Korin pode custar até cinco vezes mais que um produto convencional. Já algumas linhas naturais podem chegar a três vezes o preço comum.

O presidente reconhece que a Korin não conseguiria alimentar toda a população mundial dentro do modelo atual. A estratégia, segundo ele, é funcionar como referência e eventualmente transferir conhecimento para outros produtores.

Essa é a principal barreira do setor: práticas mais controladas, menor densidade de animais e matérias-primas especiais geram custos que ainda afastam parte considerável da população.

Ao deixar de produzir frango para a Korin, um fornecedor também deixou de comer a sua própria produção, devido à quantidade de antibióticos que os animais recebiam. Vitor Serrano/BBC

Checagem PodemFoco: um número que não fecha

A reportagem original republicada pelo Terra afirma, em determinado trecho, que a avicultura nacional realizaria 18 bilhões de abates de frangos por dia.

O número está incorreto e provavelmente resulta de um erro de edição.

Dados oficiais do IBGE mostram que o Brasil abateu aproximadamente 1,71 bilhão de frangos durante todo o primeiro trimestre de 2026. Isso representa uma média próxima de 19 milhões de aves por dia — e não 18 bilhões.

Considerando as 17,5 mil aves abatidas diariamente pela Korin, informadas na reportagem, a empresa responderia por menos de 0,1% da média diária nacional.

A escala é pequena diante da indústria convencional, mas suficiente para dar à Korin grande presença em um nicho de maior valor agregado. Os dados oficiais estão disponíveis na Pesquisa Trimestral do Abate do IBGE.

A Igreja Messiânica ainda controla a Korin?

Sim.

A ligação não ficou apenas no passado. A Igreja Messiânica Mundial continua sendo controladora do Grupo Korin e participa de sua estrutura de direção.

Em 2025, o grupo passou por uma reorganização de governança para integrar seus diferentes negócios. A holding reúne a Korin Alimentos, a Korin Agricultura e Meio Ambiente, as Lojas Korin e uma operação de cozinha industrial ligada às atividades internas da igreja.

Segundo informações divulgadas pelo AgFeed, a instituição religiosa não pretende abrir o controle da empresa para investidores externos.

O grupo, entretanto, realiza parcerias com outras empresas para comercializar carnes, peixes, cereais e diversos produtos que seguem protocolos desenvolvidos ou aprovados pela Korin.

A Korin abate 17,5 mil aves diariamente, frente ao volume da avicultura nacional de 18 bilhões de abatimentos diários. Vitor Serrano/BBC

Fé, mercado e responsabilidade

A história da Korin não cabe em uma explicação simplista.

Não se trata apenas de religião. Também não se trata apenas de marketing verde.

A empresa combina convicções espirituais, iniciativa privada, pesquisa, protocolos técnicos, produtores parceiros e uma estratégia comercial construída durante mais de três décadas.

A origem religiosa não invalida seus certificados. Da mesma maneira, as certificações não comprovam conceitos espirituais como “energia vital”.

São dimensões diferentes — e precisam ser apresentadas dessa forma para que o consumidor faça uma escolha consciente.

A grande lição deixada pela Korin é que tradição, fé, disciplina e trabalho de longo prazo podem produzir inovação concreta. Mas, em um mercado que vende saúde, sustentabilidade e confiança, a transparência deve caminhar ao lado da crença.

Para conhecer a versão institucional da empresa, acesse o Grupo Korin. A reportagem que motivou esta apuração está disponível na BBC News Brasil.

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Fontes: BBC News Brasil; Grupo Korin; Korin Alimentos; Igreja Messiânica Mundial do Brasil; Ministério da Agricultura e Pecuária; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; AgFeed; Certified Humane Brasil; El País e Câmara Municipal de Ipeúna.

Da Redação.

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