Operação prende cúpula de instituto e expõe suspeita de dinheiro público retirado em espécie
Contratos públicos, uma entidade apontada como fachada, saques milionários e até escolta armada para transportar dinheiro.
Uma operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro colocou sob suspeita a cúpula do Instituto Rio Metrópole, autarquia responsável por projetos estratégicos de mobilidade, saneamento e desenvolvimento urbano na Região Metropolitana.
Segundo a denúncia apresentada pelo MPRJ, um esquema instalado dentro do órgão teria movimentado R$ 86,28 milhões entre julho de 2022 e maio de 2026.
Seis pessoas foram presas durante a operação, incluindo o presidente da autarquia, um delegado da Polícia Civil e um procurador do Estado. Ao todo, 11 pessoas foram denunciadas por suposta participação na organização.
O caso impressiona não apenas pelo tamanho da cifra.
A acusação descreve uma engrenagem que teria usado contratos públicos, pareceres jurídicos, empresas intermediárias, saques em dinheiro vivo e segurança privada para dificultar o rastreamento dos recursos.
O que aconteceu?
A chamada Operação Ouroboros foi deflagrada para cumprir seis mandados de prisão e nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, em São Gonçalo e em Teresópolis.
A apuração teve origem em uma auditoria realizada pela Controladoria-Geral do Estado. Depois de identificar possíveis irregularidades, o material foi encaminhado ao Ministério Público, que aprofundou a investigação e pediu as medidas autorizadas pela Justiça.
De acordo com a denúncia, os contratos investigados foram celebrados pelo Instituto Rio Metrópole a partir de 2022 e teriam sido direcionados ou executados de maneira irregular.
As empresas contratadas pelo órgão teriam transferido parte dos recursos para o Brazilian Institute of Organics, conhecido como Instituto BIO, apontado pelos investigadores como uma entidade de fachada.
Depois disso, os valores seriam retirados das contas por meio de saques em espécie.
Quem são os principais investigados?
Entre os presos está Davi Perini Vermelho, conhecido como “Didê”, presidente do Instituto Rio Metrópole e ex-presidente da Câmara Municipal de São João de Meriti.
Segundo o Ministério Público, ele teria liderado o núcleo de agentes públicos, autorizando contratações, assinando documentos e controlando pagamentos realizados pela autarquia.
Também foi preso Franquis Dias Nepomuceno, delegado da Polícia Civil e diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado do instituto.
A acusação afirma que Franquis atuava como ordenador de despesas e exercia controle sobre o grupo de segurança privada RioForte, apontado como responsável pela escolta dos valores retirados em espécie.
Outro alvo é Marcelo Lopes da Silva, procurador do Estado e então chefe da Procuradoria-Geral do IRM. Ele é acusado de emitir pareceres jurídicos que teriam dado sustentação às contratações e aos reajustes considerados irregulares pelos promotores.
Também aparecem na investigação:
Caroline Soares Barros, ex-fiscal de contratos do instituto e presidente do Instituto BIO;
Amanda Íthala Santos da Paschoa, que teria sucedido Caroline na fiscalização dos contratos;
Maurício Silva Knoploch dos Santos, diretor de Planejamento e Projetos e integrante da Comissão Técnica de Licitação.
Maurício é pai do deputado estadual Alexandre Knoploch, do PL. Até o momento, as reportagens consultadas não atribuem ao parlamentar participação no suposto esquema.
A “Mulher da Mala”
Um dos personagens centrais da denúncia é Caroline Soares Barros, chamada de “Mulher da Mala” durante a investigação.
Segundo o MPRJ, ela realizava saques milionários em dinheiro vivo a partir das contas do Instituto BIO.
Os investigadores sustentam que Caroline contava com escolta armada de empresas de vigilância durante o transporte dos valores.
A suspeita é de que a retirada do dinheiro em espécie tenha sido utilizada para quebrar o caminho bancário dos recursos e dificultar a identificação dos destinatários finais.
A existência de uma estrutura de segurança para acompanhar os saques é um dos pontos mais graves da acusação, pois sugere, na visão do Ministério Público, que a operação financeira não era ocasional, mas organizada e protegida.
Como o dinheiro teria circulado
A denúncia descreve um possível caminho em quatro etapas:
1. Contratos públicos
O Instituto Rio Metrópole contratava empresas para prestar serviços ligados aos projetos da autarquia.
Entre as empresas citadas nas reportagens estão a Engeconsult Consultores Técnicos e a R Peotta Engenharia.
2. Subcontratações
Parte dos serviços e recursos teria sido repassada ao Instituto BIO, entidade controlada por Caroline e apontada pela acusação como empresa de fachada.
3. Saques em espécie
Depois que o dinheiro chegava às contas do instituto, valores elevados seriam retirados diretamente nos bancos.
4. Transporte protegido
Os recursos sacados teriam sido transportados com escolta vinculada à empresa de segurança RioForte, relacionada, segundo a investigação, ao delegado e diretor do IRM Franquis Nepomuceno.
Em um dos pontos citados na apuração, um aditivo firmado em 2023 teria acrescentado R$ 58 milhões a um contrato da Engeconsult. Os investigadores consideram esse aumento irregular.
Por que o caso é tão grave?
O Instituto Rio Metrópole não administra uma atividade secundária.
A autarquia participa do planejamento de políticas públicas que afetam milhões de moradores, incluindo projetos de transporte, ocupação urbana, saneamento e integração dos municípios da Região Metropolitana.
Quando recursos destinados a essas áreas são desviados, o prejuízo não termina no valor retirado dos cofres.
Ele pode aparecer na obra que não sai do papel, no projeto que não avança, no saneamento que não chega e na mobilidade que continua travada.
O cidadão paga duas vezes: primeiro por meio dos impostos e depois pela ausência do serviço público que deveria receber.
Auditoria abriu a caixa-preta
O governo do Rio informou que a investigação começou depois de uma auditoria da Controladoria-Geral do Estado.
Em nota reproduzida pela imprensa, o Executivo estadual declarou que o Ministério Público aprofundou os fatos levantados, reuniu elementos e solicitou as medidas judiciais cumpridas na operação.
A Polícia Civil também afirmou que abrirá procedimento administrativo para apurar a conduta do delegado investigado e declarou não compactuar com desvios praticados por seus integrantes.
O que acontece agora?
Os 11 denunciados são acusados, conforme a participação atribuída a cada um, de crimes como:
organização criminosa;
corrupção passiva;
fraude em licitações;
lavagem de dinheiro.
Para alguns investigados que não foram presos, a Justiça estabeleceu medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica, comparecimento periódico ao Judiciário e proibição de deixar o país.
As prisões são cautelares e não representam condenação definitiva.
Os acusados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Caberá à Justiça analisar as provas e decidir se as acusações apresentadas pelo Ministério Público serão confirmadas durante o processo.
Até as últimas atualizações das reportagens consultadas, os veículos buscavam manifestação das defesas dos citados.
O dinheiro público precisa ter dono: o cidadão
O caso do Instituto Rio Metrópole revela como estruturas criadas para planejar o futuro das cidades podem ser capturadas por interesses particulares quando falham os mecanismos de fiscalização.
Combater a corrupção não pode depender da ideologia, do partido ou do grupo político envolvido.
O princípio deve ser simples: quem administra dinheiro público precisa prestar contas, e quem desvia deve responder com o devido processo legal e com o rigor previsto na lei.
Agora, a investigação terá de esclarecer três questões decisivas:
Quanto dos R$ 86,28 milhões foi efetivamente desviado?
Quem recebeu o dinheiro retirado em espécie?
E como uma engrenagem dessa dimensão conseguiu funcionar durante quase quatro anos dentro de uma autarquia estadual?
As respostas poderão mostrar se o país está diante de irregularidades isoladas ou de uma estrutura organizada para transformar contratos públicos em dinheiro vivo.
Você acredita que auditorias em contratos públicos deveriam ser divulgadas em tempo real para a população? Comente sua opinião e compartilhe esta matéria. Fiscalizar o dinheiro público é defender o trabalhador que paga impostos e depende de serviços que funcionem.
Fontes: O Globo; Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro; CNN Brasil; UOL Notícias; Estadão; Misto Brasil; Governo do Estado do Rio de Janeiro e Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro.
Da Redação.
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