52 notas: o print que ligou Vorcaro a Moraes. Perícia cruzou rastros do iPhone para reconstruir uma sequência que mensagens efêmeras não apagaram.
O print tornou-se o elo central usado pela Polícia Federal para relacionar 52 textos encontrados no celular de Daniel Vorcaro a mensagens destinadas ao contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. A conclusão surgiu do cruzamento entre notas, arquivos temporários, capturas de tela, registros do sistema e atividades do WhatsApp.
A tentativa de fazer uma mensagem desaparecer pode apagar o conteúdo visível da conversa, mas não necessariamente elimina todos os vestígios produzidos pelo aparelho.
Foi justamente essa diferença que permitiu à Polícia Federal reconstruir o caminho do print no iPhone 17 Pro apreendido com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, em novembro de 2025.
Segundo o relatório policial divulgado em 1º de setembro de 2026, os investigadores não dependeram apenas do histórico do WhatsApp. Eles cruzaram milhares de registros produzidos pelo sistema operacional, horários de abertura dos aplicativos, capturas de tela e pacotes de dados enviados pelo aparelho.
A dimensão da análise chama atenção: foram examinados 31.975 logs do sistema, 43.298 registros de uso de aplicativos e 52 notas que apresentariam um padrão semelhante. A reportagem que revelou a trilha do print mostra que o intervalo entre a preparação do texto e o envio variava, em média, de 11 a 35 segundos.
O resultado é uma reconstrução digital relevante, mas que precisa ser compreendida dentro de seus limites: o relatório apresenta a conclusão técnica da PF, enquanto a validade jurídica do procedimento e o significado das mensagens ainda estão sujeitos à análise do Supremo Tribunal Federal.
Como o print teria sido usado nas mensagens
De acordo com a perícia, Vorcaro não digitava diretamente no WhatsApp as mensagens consideradas mais sensíveis.
O banqueiro supostamente escrevia o conteúdo no aplicativo Notas do iPhone, fazia um print do texto e encaminhava a imagem pelo WhatsApp utilizando a função de visualização única.
Esse recurso permite que a imagem seja aberta uma única vez pelo destinatário e, depois, desapareça da conversa. O contato também estaria configurado para apagar automaticamente as mensagens após 24 horas.
Na superfície, o procedimento criava duas camadas de proteção:
- o conteúdo não permanecia como texto pesquisável no WhatsApp;
- o print desaparecia depois de ser visualizado;
- a conversa era submetida à exclusão automática;
- a nota original poderia ser apagada posteriormente.
O problema é que a ação do usuário não acontecia exclusivamente dentro do WhatsApp. Antes do envio, o texto passava pelo aplicativo Notas, pelo sistema de captura de tela e por áreas temporárias do iPhone.
Cada etapa podia produzir um vestígio diferente.
Resposta direta: A mensagem de visualização única desapareceu do WhatsApp, mas o caminho percorrido antes do envio deixou registros no aparelho. O print funcionou como uma ponte entre o conteúdo encontrado nas notas e a atividade registrada no aplicativo de mensagens.
A trilha digital que a PF reconstruiu
Para compreender a conclusão policial, é necessário separar o conteúdo recuperado dos registros que indicariam sua movimentação.
Encontrar uma nota no aparelho de Vorcaro não seria suficiente, isoladamente, para provar que aquele texto foi enviado a outra pessoa. Uma anotação pode ser apenas um rascunho, um lembrete ou um conteúdo nunca compartilhado.
Por isso, os peritos procuraram uma sequência repetida de acontecimentos.
Segundo a análise divulgada, o comportamento observado começava com a abertura do aplicativo Notas. Em seguida, o conteúdo era editado, uma captura de tela era realizada e um arquivo temporário era produzido no sistema.
Logo depois, o aplicativo Notas era fechado, o WhatsApp era aberto e um pacote de dados era enviado ao terminal vinculado ao contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
O WhatsApp era fechado após a transmissão.
A análise técnica publicada pela Folha de S.Paulo informa que a perícia identificou esse padrão ao examinar dezenas de milhares de registros.
A reconstrução teria seguido esta ordem:
- Vorcaro abria o aplicativo Notas.
- O texto era escrito ou modificado.
- Uma captura de tela era realizada.
- Um arquivo temporário com conteúdo correspondente era gerado.
- O aplicativo Notas era fechado.
- O WhatsApp era aberto segundos depois.
- Um pacote de dados era transmitido ao contato investigado.
- O WhatsApp era fechado.
O intervalo reduzido entre essas ações foi um dos elementos usados para relacionar o print ao envio.
Segundo a PF, não se tratava de uma coincidência isolada. O padrão teria aparecido em 52 notas, aumentando a relevância estatística da sequência observada.
Quanto mais vezes uma mesma combinação de ações ocorre — nota, captura, arquivo temporário, abertura do WhatsApp e transmissão — menor tende a ser a possibilidade de que todos os eventos sejam completamente independentes.
Isso não significa que a simples proximidade dos horários responda a todas as questões do caso. Significa que os investigadores encontraram uma regularidade técnica que, na avaliação policial, sustentaria a hipótese de envio.

O papel do arquivo PDF encontrado no iPhone
Um dos pontos mais incomuns do relatório envolve arquivos em PDF localizados temporariamente na memória do aparelho.
Segundo a perícia, o processo usado para capturar o conteúdo das notas teria deixado arquivos temporários com texto idêntico ao exibido na tela. Esses documentos continham informações de data e horário compatíveis com as capturas analisadas.
É importante fazer uma distinção: a conclusão relatada pela PF não deve ser interpretada como a afirmação de que todo print realizado em qualquer iPhone sempre produzirá um PDF permanentemente recuperável.
O relatório descreve o comportamento encontrado naquele aparelho, naquela versão do sistema e nas condições específicas da extração forense.
Mesmo quando um arquivo é apagado ou deveria permanecer apenas temporariamente no sistema, fragmentos podem continuar armazenados até serem sobrescritos por outros dados. Ferramentas forenses conseguem localizar alguns desses vestígios, dependendo do aparelho, da criptografia, do tempo transcorrido e do uso posterior do dispositivo.
No caso investigado, a PF utilizou uma ferramenta da Cellebrite para acessar os dados extraídos do iPhone. Depois, empregou o Indexador e Processador de Evidências Digitais, conhecido como IPED, para organizar e relacionar os arquivos.
O IPED é uma ferramenta desenvolvida pela própria Polícia Federal para processar grandes volumes de evidências digitais. Ele permite indexar documentos, mensagens, imagens, metadados e registros produzidos por diferentes aplicativos.
O que é a trilha do print? É a sequência de vestígios deixada pela criação, armazenamento temporário e possível compartilhamento de uma captura de tela. Ela pode reunir conteúdo, horário, aplicativo utilizado, atividade do sistema e destino do pacote de dados.
O que cada evidência indica — e o que não prova sozinha
O ponto mais importante para uma leitura responsável é evitar que uma evidência circunstancial seja apresentada como se fosse uma resposta definitiva para todas as perguntas.
A força do relatório estaria na combinação dos elementos, e não em um único arquivo.
| Elemento analisado | O que pode indicar | Limitação quando examinado sozinho |
|---|---|---|
| Nota recuperada | Existência do texto no aparelho | Não demonstra que o conteúdo foi enviado |
| Print ou captura | Texto exibido e capturado na tela | Não identifica sozinho o destinatário |
| Arquivo temporário | Registro técnico produzido durante a operação | Pode não demonstrar compartilhamento |
| Log do sistema | Horário de uma ação ou transmissão | Nem sempre revela o conteúdo transmitido |
| Uso de aplicativos | Sequência entre Notas e WhatsApp | Não comprova sozinho qual arquivo foi enviado |
| Contato associado | Terminal selecionado para a comunicação | A identidade e a titularidade precisam ser confirmadas |
| Repetição do padrão | Consistência do comportamento observado | Continua sujeita à contestação pericial e judicial |
A existência de um texto e de uma transmissão realizada segundos depois fortalece a hipótese de conexão entre os eventos. Porém, a avaliação definitiva depende da integridade da extração, da cadeia de custódia, da metodologia aplicada e da possibilidade de reprodução das conclusões por outros peritos.
Também existe uma diferença entre identificar o aparelho destinatário e determinar como o conteúdo foi recebido, interpretado ou respondido.
A perícia descrita nas reportagens concentra-se principalmente na reconstrução das mensagens supostamente enviadas por Vorcaro. As respostas atribuídas a Moraes não foram integralmente recuperadas no mesmo conjunto apresentado publicamente.
Por isso, não é correto transformar automaticamente os textos encontrados no aparelho do banqueiro em uma transcrição completa de um diálogo entre duas pessoas.
O relatório sustenta uma correlação. A defesa, o Ministério Público e o Supremo ainda podem questionar a origem, a interpretação, a legalidade ou a força probatória dessa correlação.

O print relaciona o conteúdo diretamente a Moraes?
Segundo a Polícia Federal, os registros apontavam transmissões para um terminal associado ao contato salvo no celular de Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
A identificação do nome na agenda, entretanto, não foi o único elemento considerado. A PF afirma ter relacionado esse contato a outros dados encontrados durante a análise.
Ainda assim, a controvérsia permanece.
Em março de 2026, antes da divulgação integral desse novo relatório, o gabinete de Alexandre de Moraes negou que determinadas mensagens encontradas no celular de Vorcaro tivessem sido destinadas ao ministro. A versão divulgada afirmava que os arquivos estariam vinculados a pastas de outros contatos.
A nota de Moraes divulgada pela Agência Brasil tratava especificamente das mensagens de 17 de novembro de 2025, data relacionada à primeira prisão do banqueiro.
O relatório tornado público em setembro apresenta uma análise mais ampla, baseada na correlação entre notas, prints, arquivos temporários, logs, uso de aplicativos e terminais destinatários.
Essas duas versões deverão ser confrontadas tecnicamente.
Uma das questões decisivas será verificar se a correlação temporal permite individualizar, com segurança suficiente, o conteúdo de cada print enviado. Outra será estabelecer se o terminal identificado pertencia e era utilizado pelo ministro no período analisado.
Também será necessário diferenciar mensagens efetivamente enviadas de rascunhos que apenas foram criados ou capturados.
Por que a visualização única não apagou todos os rastros
A visualização única protege o conteúdo dentro da experiência normal do WhatsApp. Depois de aberta, a imagem deixa de aparecer para os participantes da conversa.
Isso não significa que o recurso seja capaz de apagar retroativamente os dados produzidos por outros aplicativos ou pelo próprio sistema operacional.
No caso de um print criado fora do WhatsApp, podem existir registros anteriores ao envio. A captura foi produzida pelo aparelho, manipulada pelo sistema e selecionada pelo usuário antes de entrar no fluxo criptografado do aplicativo.
É justamente nessa etapa anterior que a perícia encontrou os principais vestígios.
A criptografia de ponta a ponta protege o conteúdo durante a transmissão entre remetente e destinatário. Ela não impede que o próprio aparelho do remetente registre ações executadas antes do envio.
Por isso, apagar a conversa ou usar uma imagem temporária não equivale necessariamente a apagar:
- o texto originalmente escrito;
- o horário de abertura dos aplicativos;
- o registro da captura;
- arquivos temporários;
- metadados;
- eventos do sistema;
- informações sobre a transmissão de dados.
Snippet de resposta: Mensagens temporárias reduzem a permanência do conteúdo no aplicativo, mas não garantem o desaparecimento dos vestígios gerados antes do envio. A perícia pode reconstruir parte da atividade cruzando registros independentes do aparelho.
A disputa sobre a validade jurídica do relatório
A divulgação da perícia não encerrou a controvérsia. Pelo contrário: abriu uma disputa sobre quem poderia determinar a apuração e qual órgão deveria autorizar uma investigação envolvendo um ministro do STF.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade do relatório. Segundo a manifestação, o relator André Mendonça teria excedido suas competências ao ordenar diligências que alcançaram um integrante do Supremo sem uma provocação da PGR ou autorização prévia do plenário.
A manifestação da PGR sobre a nulidade não afirma necessariamente que os arquivos digitais sejam falsos. O questionamento principal é processual: discute-se se a investigação foi determinada e conduzida pela autoridade competente.
Essa diferença é essencial.
Uma evidência pode existir tecnicamente e, ainda assim, ter sua utilização jurídica questionada. Da mesma forma, uma controvérsia processual não apaga automaticamente o conteúdo material encontrado, embora possa impedir ou limitar seu uso em uma investigação criminal.
André Mendonça retirou o sigilo do procedimento e indicou que os elementos deverão ser analisados pelo plenário do STF. A data dessa deliberação ainda dependerá da Presidência da Corte.
Até que o Supremo decida, permanecem abertas questões sobre competência, admissibilidade da prova, necessidade de novas perícias e eventual aprofundamento da investigação.
Leia também: Denúncia: 5 bets barradas pela PF foram liberadas
O que ainda precisa ser esclarecido
A trilha do print respondeu como a PF relacionou tecnicamente as notas aos possíveis envios, mas não solucionou todas as perguntas do caso.
Ainda será necessário esclarecer:
- quem era o titular e o usuário efetivo do terminal apontado;
- quais mensagens tiveram o envio individualizado;
- se os arquivos temporários preservam integralmente cada conteúdo;
- se houve respostas e se elas podem ser recuperadas;
- se a cadeia de custódia foi preservada em todas as etapas;
- se a metodologia pode ser reproduzida por uma perícia independente;
- se a diligência foi autorizada pela autoridade competente;
- qual era o contexto completo de cada comunicação.
Nenhuma dessas perguntas deve ser resolvida por afinidade política ou rejeição pessoal aos envolvidos. O caminho correto é técnico, documental e institucional.
Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes não podem ser considerados culpados com base apenas na repercussão pública do relatório. Ao mesmo tempo, a posição institucional de qualquer autoridade não elimina o dever de esclarecimento quando surgem elementos que exigem apuração.
Leia também: Vexame: 2 teses de Gonet para anular relatório da PF
Conclusão
A investigação demonstra como um print aparentemente temporário pode deixar uma cadeia extensa de vestígios digitais. A PF afirma ter relacionado 52 notas a possíveis envios para um contato atribuído a Alexandre de Moraes por meio de horários, arquivos temporários, logs e registros de uso do iPhone de Daniel Vorcaro.
O relatório é relevante, mas ainda não representa uma decisão judicial definitiva. Moraes contestou parte das atribuições, a PGR questionou a legalidade do procedimento e o STF deverá analisar os próximos passos.
Mais do que escolher uma narrativa antecipadamente, o interesse público exige transparência, contraditório, perícia verificável e investigação imparcial. Compartilhe a matéria e deixe sua opinião: a trilha técnica apresentada é suficiente para justificar o aprofundamento da apuração?
Aviso Importante
Este artigo tem propósito informativo e não substitui consultoria jurídica especializada. Procure um advogado para orientação adequada ao seu caso.
A trilha digital apresentada pela PF é suficiente para aprofundar a investigação? Comente sua opinião, compartilhe a matéria e acompanhe os próximos desdobramentos do caso.
Fontes:
Polícia Federal
Gazeta do Povo
Folha de S.Paulo
Agência Brasil
Poder360
Da Redação.
Perguntas frequentes
Como a PF recuperou o conteúdo dos prints?
A PF encontrou notas e arquivos temporários no iPhone de Daniel Vorcaro e os cruzou com registros de captura de tela, abertura de aplicativos e transmissões pelo WhatsApp. Segundo o relatório, a repetição dessa sequência permitiu relacionar 52 textos a possíveis mensagens enviadas.
A PF recuperou as conversas completas entre Vorcaro e Moraes?
O material divulgado concentra-se principalmente nos textos encontrados no aparelho de Vorcaro e na reconstrução dos possíveis envios. Isso não equivale necessariamente a uma conversa completa, com todas as respostas e o contexto integral de cada diálogo.
Mensagem de visualização única pode ser recuperada?
A imagem desaparecida do WhatsApp pode não ser recuperada diretamente dentro do aplicativo. Entretanto, arquivos, capturas, metadados e registros gerados antes do envio podem permanecer no aparelho e permitir uma reconstrução parcial.
O contato salvo prova que o número era de Alexandre de Moraes?
O nome salvo na agenda não prova sozinho a identidade do usuário. A PF afirma ter combinado o contato com dados técnicos e padrões de transmissão, mas a titularidade e o uso efetivo do terminal continuam sendo pontos relevantes para confirmação pericial.
Quantos registros foram analisados pela Polícia Federal?
As informações divulgadas indicam a análise de 31.975 logs do sistema, 43.298 registros de uso de aplicativos e 52 notas com padrão técnico semelhante. Os intervalos observados entre a produção do conteúdo e o envio variavam, em média, de 11 a 35 segundos.
Alexandre de Moraes negou ter recebido as mensagens?
Em março de 2026, o gabinete do ministro negou que determinadas mensagens de 17 de novembro de 2025 tivessem sido enviadas a ele. O novo relatório da PF apresentou uma correlação mais ampla, que ainda deverá ser submetida ao contraditório e à análise do STF.
O relatório da PF pode ser anulado?
A PGR pediu a nulidade alegando problemas de competência e procedimento na determinação da investigação. Caberá ao Supremo decidir se o relatório poderá ser utilizado, se novas diligências serão autorizadas ou se houve irregularidade processual.
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