Relatório mira Careca e ex-dirigentes; filho de Lula segue em apuração separada
Quarenta e oito pessoas foram indiciadas, ex-dirigentes públicos entraram na mira e milhões de aposentados aparecem como vítimas. Mas um nome politicamente explosivo não está nessa primeira lista: Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
A Polícia Federal concluiu o primeiro inquérito da Operação Sem Desconto, investigação que apura um gigantesco esquema de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social.
O relatório foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator do caso, e reúne indiciamentos por suspeitas de organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro.
Entre os principais nomes estão o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, o ex-presidente da autarquia Alessandro Stefanutto e integrantes da cúpula da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais, a Conafer.
A pergunta que imediatamente tomou conta do debate político foi inevitável:
Por que o filho do presidente Lula, citado em outras frentes da investigação, não aparece entre os indiciados?
A resposta exige atenção aos detalhes.
O QUE A POLÍCIA FEDERAL CONCLUIU
Este primeiro inquérito concentra-se na atuação da Conafer, entidade apontada como uma das maiores beneficiárias dos descontos realizados sobre aposentadorias e pensões.
Segundo dados atribuídos à Controladoria-Geral da União, a confederação recebeu aproximadamente R$ 484 milhões entre 2019 e 2024 em descontos associativos. Desse universo, centenas de milhões de reais foram identificados como créditos atípicos pelos investigadores.
A investigação sustenta que idosos eram levados a assinar formulários apresentados como atualizações cadastrais. Posteriormente, esses documentos teriam sido utilizados para produzir filiações associativas sem autorização consciente dos beneficiários.
O dinheiro era retirado diretamente da aposentadoria.
Mês após mês.
Em valores que, isoladamente, poderiam parecer pequenos, mas que, multiplicados por centenas de milhares de vítimas, teriam alimentado uma estrutura milionária.
QUEM FOI INDICIADO
Entre os 48 indiciados estão:
Antônio Carlos Camilo Antunes
Conhecido como Careca do INSS, foi indiciado por suspeitas relacionadas à lavagem de dinheiro e participação em corrupção passiva.
Antunes é apontado como um dos personagens centrais da estrutura investigada. Sua defesa declarou que ainda não teve acesso integral ao indiciamento e, por isso, não poderia apresentar manifestação detalhada.
Alessandro Stefanutto
O ex-presidente do INSS foi indiciado por suspeita de integrar organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
A Polícia Federal afirma que Stefanutto teria atuado como facilitador dentro da alta administração do instituto, permitindo a manutenção de convênios mesmo diante de alertas técnicos sobre inconsistências e possíveis autorizações falsificadas.
A defesa nega irregularidades e anunciou que pedirá ao STF a revogação de sua prisão preventiva.
Carlos Roberto Ferreira Lopes
Presidente da Conafer, Lopes é apontado como possível líder e idealizador do núcleo relacionado à entidade.
Segundo a investigação, ele controlaria transferências, distribuição de recursos e articulações políticas para sustentar os descontos.
Lopes já negou participação em fraudes e defendeu que a Conafer atua de maneira regular. De acordo com as reportagens consultadas, ele é considerado foragido desde novembro de 2025.
Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho
Ex-procurador-geral do INSS, foi indiciado por suspeita de organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Ele nega ter cometido irregularidades e contesta a existência de interferência política em sua nomeação ou atuação.
Euclydes Pettersen
O deputado federal de Minas Gerais foi indiciado por suspeitas de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
O relatório atribuído à PF aponta que o parlamentar teria recebido ou se beneficiado de aproximadamente R$ 14,7 milhões, utilizando empresas e contas intermediárias. Como todo indiciado, ele mantém o direito à defesa e à presunção de inocência.
A DIMENSÃO DO ESCÂNDALO
A Operação Sem Desconto investiga um esquema nacional de cobranças associativas realizadas sobre benefícios previdenciários.
As estimativas divulgadas pelos veículos consultados apontam que os descontos sob investigação podem alcançar aproximadamente R$ 6 bilhões, considerando diferentes entidades e frentes apuradas entre 2019 e 2024.
No núcleo da Conafer, a PF fala em mais de 600 mil possíveis vítimas e em uma receita ilícita que teria ultrapassado R$ 700 milhões.
Esses números, porém, pertencem a recortes distintos da investigação. O valor global da Operação Sem Desconto não deve ser confundido com o montante atribuído exclusivamente à Conafer.
A investigação também atravessa diferentes governos, já que os descontos e convênios questionados ocorreram durante administrações anteriores e na atual gestão.
E LULINHA? POR QUE ELE NÃO FOI INDICIADO?
Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, não aparece entre os 48 indiciados deste primeiro relatório.
Isso não significa que todas as suspeitas envolvendo seu nome tenham sido arquivadas.
A explicação apresentada pelas apurações jornalísticas é que esse inquérito foi delimitado ao núcleo da Conafer. As menções a Lulinha e à empresária Roberta Luchsinger integram outras frentes da Operação Sem Desconto.
O filho do presidente apareceu em depoimentos, mensagens e registros relacionados a Antônio Carlos Camilo Antunes.
Uma testemunha confirmou à PF que Lulinha participou de viagens e visitas a instalações industriais em Portugal ligadas a um projeto empresarial conduzido pelo Careca do INSS.
A mesma testemunha afirmou, entretanto, que ele não exercia função operacional nem participava ativamente das negociações.
Também foram divulgadas informações sobre uma viagem a Portugal, realizada em 2024, para conhecer instalações destinadas a um projeto ligado à produção de cannabis medicinal.
A defesa de Fábio Luís reconheceu a viagem, mas declarou que ela ocorreu antes da exposição pública das suspeitas contra Antunes e negou sociedade, recebimento de dinheiro ou participação em atividades ilícitas.
Até o momento, a PF afirma não ter identificado elementos suficientes para atribuir a Lulinha participação nas negociações do empreendimento português.
A EXPRESSÃO “FILHO DO RAPAZ”
Outro episódio que elevou a temperatura política envolve mensagens atribuídas ao Careca do INSS.
Em uma das conversas analisadas, Antunes teria mencionado o envio de R$ 300 mil e utilizado a expressão “filho do rapaz” ao tratar do possível destinatário final.
Investigadores passaram a apurar se a frase seria uma referência a Lulinha.
A empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís e apontada como a pessoa que teria apresentado os dois, recebeu aproximadamente R$ 1,5 milhão de empresas ligadas a Antunes, segundo informações divulgadas sobre a investigação.
A defesa de Lulinha nega que ele tenha recebido os R$ 300 mil ou qualquer pagamento do Careca do INSS. Não há, até esta publicação, condenação judicial ou indiciamento de Fábio Luís nessa primeira conclusão policial.
INDICIAMENTO NÃO É CONDENAÇÃO
O indiciamento representa a conclusão da autoridade policial de que existem elementos para atribuir a uma pessoa possível participação em determinado crime.
Ele não equivale a uma condenação.
O relatório deverá ser analisado pelas instituições responsáveis, incluindo a Procuradoria-Geral da República, que poderá oferecer denúncia, pedir novas diligências ou entender que os elementos são insuficientes.
Somente após eventual processo judicial, com direito à ampla defesa e ao contraditório, poderá existir uma decisão definitiva sobre culpa ou inocência.
A própria Conafer afirma que o indiciamento é uma manifestação produzida durante a fase investigativa e que as conclusões ainda poderão ser contestadas pelas defesas.

O QUE AINDA PRECISA SER RESPONDIDO
A conclusão do primeiro inquérito não encerra o caso.
Ao contrário, abre novas perguntas:
Quem autorizou a continuidade dos descontos mesmo diante das reclamações?
Quantos agentes públicos receberam dinheiro para manter os convênios funcionando?
Todo o patrimônio retirado de aposentados será recuperado?
As demais frentes da investigação chegarão a pessoas politicamente influentes?
E quais elementos existem, de fato, sobre as relações comerciais e pessoais entre o Careca do INSS, Roberta Luchsinger e Lulinha?
O Brasil precisa de respostas baseadas em provas, não em proteção partidária nem em condenações antecipadas.
Quando o dinheiro de aposentados é retirado sem autorização, não existe justificativa ideológica aceitável. O dever das instituições é investigar todos os envolvidos — estejam eles próximos do governo atual, de governos anteriores, do Congresso ou de grupos empresariais.
O CASO ESTÁ LONGE DO FIM
A Operação Sem Desconto tornou-se um dos maiores escândalos envolvendo a Previdência Social nos últimos anos.
O primeiro relatório atingiu empresários, dirigentes associativos, ex-integrantes da administração pública e um parlamentar.
Entretanto, personagens citados em outros núcleos ainda aguardam a conclusão das apurações.
A ausência de Lulinha nessa lista não comprova culpa, inocência ou favorecimento. Mostra apenas que ele não foi indiciado neste inquérito específico.
Agora, caberá à Polícia Federal, ao Ministério Público e ao Supremo esclarecer se as outras suspeitas possuem fundamento criminal ou se permanecerão apenas como conexões pessoais e comerciais sem participação no esquema.
A sociedade tem o direito de acompanhar cada passo.
Sem blindagem.
Sem perseguição.
E sem dois pesos e duas medidas.
Você acredita que a investigação chegará a todos os envolvidos, independentemente de sobrenome, partido ou influência política? Compartilhe esta reportagem e deixe sua opinião nos comentários. O dinheiro retirado de aposentados não pode desaparecer no silêncio dos corredores do poder.
Fontes: Polícia Federal; Supremo Tribunal Federal; Controladoria-Geral da União; Folha de S.Paulo; CNN Brasil; SBT News; Gazeta do Povo; Diário do Poder e Agência Brasil.
Da Redação.
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