Depois do incêndio, dinheiro público entra na obra. E a fiscalização?
Depois do fogo, da interdição e da pressão dos comerciantes, a reconstrução do Mercado Municipal de Piracicaba acaba de ganhar um novo capítulo: a Câmara aprovou o repasse de R$ 1 milhão para ajudar a concluir as obras. A pergunta que fica agora é direta: esse dinheiro vai resolver o problema — e quem vai fiscalizar cada centavo?
A Câmara Municipal de Piracicaba aprovou, em sessões extraordinárias realizadas na segunda-feira, 29 de junho, o Projeto de Lei 158/2026, enviado pelo Executivo, que autoriza a Prefeitura a repassar R$ 1 milhão à Associação do Comércio Varejista do Mercado Municipal de Piracicaba. O dinheiro será usado na etapa final da recuperação do prédio histórico do Mercadão.
O prédio foi atingido por um incêndio em julho de 2025. Segundo a Prefeitura, as chamas afetaram 17 boxes, não deixaram vítimas, mas obrigaram a interdição da área atingida e a adoção de medidas emergenciais para manter parte dos permissionários trabalhando em módulos provisórios.
A obra já consumiu R$ 2,4 milhões — e ainda falta dinheiro
A primeira fase da reconstrução foi paga com recursos do seguro e custou R$ 2,4 milhões. Nessa etapa, foram feitas demolições, remoção de estruturas comprometidas, reconstrução de paredes, instalação de cobertura metálica, retirada de piso antigo, adequações hidráulicas, divisórias dos boxes e uma nova caixa d’água de 50 mil litros para a rede de hidrantes.
Só que o seguro não fechou a conta.
A segunda etapa da obra está orçada em R$ 1.745.904,78. Com o repasse público de R$ 1 milhão, ainda resta uma diferença aproximada de R$ 745 mil que a associação terá de buscar por outros meios.
O ponto sensível: dinheiro público em prédio com gestão compartilhada
O caso chama atenção porque o Mercadão é um patrimônio histórico de Piracicaba, mas a administração ocorre em modelo de gestão compartilhada com a associação dos comerciantes. É aqui que a discussão ganha peso político e fiscal.
De um lado, há o argumento de que o Mercadão não é apenas um comércio: é memória, turismo, abastecimento, empregos e centro vivo da cidade.
Do outro, existe uma pergunta legítima do contribuinte: se entra dinheiro público, haverá transparência total?
Pelo texto do projeto, a entidade beneficiada terá que apresentar plano de trabalho, cronograma, prestação de contas em até 90 dias, notas fiscais, recibos, comprovantes de pagamento, extrato bancário da conta específica do repasse e registro fotográfico do “antes e depois”.
Ou seja: o cheque não pode ser em branco.
O Mercadão ficou parado?
Segundo reportagem do TodoDia publicada antes da aprovação, representantes do Mercadão afirmaram que os trabalhos estavam paralisados havia cerca de 40 dias por falta de recursos para continuidade da reconstrução. A expectativa era que a aprovação permitisse retomada imediata dos serviços.
Esse detalhe aumenta a pressão sobre a Prefeitura, a associação e a Câmara: se a verba foi aprovada para destravar a obra, a população agora vai querer ver resultado concreto.
Quem entrou no debate político
Durante a discussão na Câmara, o vereador André Bandeira (PSDB) defendeu a importância do repasse, mas criticou a falta de regulamentação do Banco do Povo Municipal, que, segundo ele, havia sido aprovado no ano anterior com a justificativa de ajudar também comerciantes afetados.
Rai de Almeida (PT) destacou o prejuízo para concessionários e para a população. Josef Borges (PP), líder do governo, argumentou que a urgência do Mercadão não deveria ser confundida com a regulamentação do Banco do Povo. Silvia Morales (PV) cobrou resposta sobre cronograma das obras. Renan Paes (PL) disse que muitas promessas anteriores não viraram realidade.
A leitura política é simples: o projeto passou, mas o desgaste só será evitado se a obra andar, a prestação de contas aparecer e o Mercadão voltar a operar plenamente.
O que precisa ser fiscalizado agora
1. Plano de trabalho
A associação precisa apresentar exatamente o que será feito com o recurso.
2. Prazo real da conclusão
A cidade precisa saber quando o Mercadão será totalmente devolvido.
3. Notas fiscais e pagamentos
Cada gasto deve ter documento, rastreio e justificativa.
4. Valor restante
Se ainda faltam cerca de R$ 745 mil, quem vai pagar essa diferença?
5. Segurança contra novos incêndios
Depois de uma tragédia, prevenção não é detalhe. É obrigação.
O que está em jogo
O Mercado Municipal de Piracicaba não é apenas um prédio antigo. É um símbolo de cidade, comércio tradicional e identidade local. Mas símbolo nenhum está acima da transparência.
A aprovação do repasse pode ser uma boa notícia para comerciantes e frequentadores. Porém, em tempos de cobrança por responsabilidade fiscal, a população tem o direito de acompanhar de perto: quanto entrou, onde foi aplicado, quem executou e quando a obra termina.
No fim, a reconstrução do Mercadão será julgada por dois resultados: a entrega da obra e a clareza da prestação de contas.
Se os dois acontecerem, Piracicaba ganha.
Se um deles falhar, a conta política pode ser bem mais cara que R$ 1 milhão.
Você acha correto usar R$ 1 milhão de dinheiro público para concluir a obra do Mercadão? Ou a associação deveria bancar tudo? Comente sua opinião e compartilhe essa matéria com quem acompanha Piracicaba de perto.
Fonte: Governo de Piracicaba
Da Redação.
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