Lula reage a Trump: e o tarifaço chinês de 67%?

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Pequim limita a carne brasileira; Lula reage a Trump: e o tarifaço chinês de 67%? Reação discreta do Planalto acende debate sobre dois pesos.

Tarifaço chinês de 67% sobre a carne brasileira colocou o governo Lula diante de uma pergunta incômoda: por que o presidente elevou o tom contra os Estados Unidos, mas adotou uma postura pública muito mais cautelosa diante da China?

A comparação ganhou força após o governo de Donald Trump anunciar uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. Lula classificou a decisão americana como injusta, prometeu recorrer à Lei da Reciprocidade e acusou adversários políticos de atuarem contra os interesses nacionais.

Quando Pequim restringiu a entrada da carne brasileira, entretanto, a reação presidencial não teve o mesmo volume político.

Mas existe um detalhe essencial: ao contrário do que algumas publicações sugerem, o governo brasileiro não ficou completamente parado diante da China. Houve negociações diplomáticas, manifestações ministeriais e articulação com o setor privado — embora sem o enfrentamento público utilizado contra Washington.

Tarifaço chinês de 67%: o que Pequim realmente decidiu?

A China estabeleceu cotas anuais para a importação de carne bovina a partir de 1º de janeiro de 2026. Para o Brasil, o limite inicial foi fixado em 1,106 milhão de toneladas.

Dentro dessa cota, permanece a tarifa normal de 12%. Quando o volume ultrapassa o limite, entra uma sobretaxa adicional de 55%.

A conta chega, portanto, aos 67% cobrados sobre a carne exportada fora da cota:

Tarifa normal: 12%;
Sobretaxa sobre o excedente: 55%;
Carga total fora da cota: 67%.

Ou seja, o tarifaço chinês de 67% não atinge automaticamente toda a carne brasileira. Ele incide apenas sobre os embarques que ultrapassarem a cota estabelecida por Pequim. Essa distinção é indispensável para evitar uma interpretação enganosa.

A medida chinesa também não foi criada exclusivamente contra o Brasil. Austrália, Estados Unidos e outros fornecedores receberam cotas próprias. Pequim afirma que a salvaguarda busca proteger seus pecuaristas contra o crescimento das importações. A Reuters detalhou a decisão chinesa e suas justificativas.

Leia também: Carne brasileira explode e acende alerta na China

Por que o tarifaço chinês de 67% preocupa tanto?

O problema está no tamanho da dependência brasileira.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, a Abiec, o Brasil vendeu aproximadamente 1,7 milhão de toneladas de carne bovina para a China em 2025. Esse volume representou cerca de 48% de toda a carne bovina exportada pelo país.

A cota chinesa para 2026 ficou quase 600 mil toneladas abaixo do volume comercializado no ano anterior.

Isso significa que frigoríficos, pecuaristas e transportadores podem enfrentar:

Redução dos embarques;
Pressão sobre os preços do boi;
Necessidade de encontrar novos mercados;
Queda nas receitas de exportação;
Impactos sobre empregos ligados à cadeia frigorífica.

A própria Abiec estima que as exportações brasileiras de carne bovina podem cair aproximadamente 10% em 2026 por causa das restrições chinesas. A entidade também alertou que não existe, no curto prazo, outro comprador capaz de absorver sozinho todo o volume adquirido pela China. Confira o posicionamento conjunto da Abiec e da CNA.

Tarifaço chinês de 67% sobre a carne brasileira

Lula realmente ficou em silêncio diante da China?

Não exatamente. A reação existiu, mas foi predominantemente técnica e diplomática.

Logo após o anúncio, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, informou que o Brasil negociaria uma flexibilização das regras. Uma das propostas seria permitir que os exportadores brasileiros utilizassem cotas não aproveitadas por outros países.

Os ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento e das Relações Exteriores também disseram trabalhar com a iniciativa privada para reduzir os efeitos da salvaguarda. O governo afirmou que utilizaria canais bilaterais e mecanismos da Organização Mundial do Comércio.

Em fevereiro, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, confirmou que Brasília analisava formas de administrar a cota entre os frigoríficos, evitando uma corrida desordenada pelos embarques.

Portanto, dizer que Lula ou seu governo “nada fizeram” não corresponde aos fatos disponíveis.

A crítica politicamente válida é outra: por que o Planalto tratou o tarifaço chinês de 67% de maneira discreta, enquanto transformou a tarifa americana em uma batalha pública sobre soberania nacional?

China e Estados Unidos: são medidas iguais?

Não. A comparação exige cuidado.

A medida chinesa é uma salvaguarda setorial, aplicada à carne bovina de diversos fornecedores e vinculada ao estouro de cotas. Já a tarifa americana de 25% alcança diferentes produtos brasileiros, como máquinas, móveis, açúcar, etanol e calçados.

Café, carne bovina e partes de aeronaves ficaram fora da principal lista americana. Segundo estimativas divulgadas pela imprensa internacional, a tarifa dos Estados Unidos alcança aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas ao país.

O governo Trump diz que a medida responde a práticas comerciais e ambientais brasileiras. O Planalto contesta essa explicação e afirma que existe motivação política. Reuters e Associated Press registraram as posições dos dois governos.

Assim, não é correto comparar as porcentagens isoladamente. O alcance, a natureza jurídica e os setores afetados são diferentes.

Dois pesos na diplomacia de Lula?

A postura do presidente alimenta a percepção de afinidade ideológica com o governo de Xi Jinping e hostilidade política em relação a Donald Trump.

Lula mantém relações próximas com Pequim, defende o fortalecimento do Brics e apresenta a China como parceira estratégica. Com Washington, o ambiente ficou mais tenso, especialmente após as acusações americanas contra políticas brasileiras e a aproximação de Trump com aliados de Jair Bolsonaro.

Para os críticos, a diferença de tom revela seletividade: confronto com um governo conservador e prudência diante do regime comunista chinês.

Para o Planalto, a explicação é pragmática. A China é o maior parceiro comercial do Brasil, o maior comprador da carne nacional e um destino decisivo para soja, minério de ferro e petróleo. Um confronto aberto poderia produzir consequências econômicas imediatas.

Essa prudência pode ser compreensível. O problema é transformar soberania em discurso variável conforme o país envolvido.

O tarifaço chinês de 67% já começa a pesar

Boletim publicado em 16 de julho pelo Departamento de Economia Rural do Paraná apontou que o rápido preenchimento da cota chinesa já reduzia o ritmo das negociações no mercado brasileiro do boi gordo.

A pressão pode crescer à medida que o limite se aproxima do esgotamento. Exportar acima da cota com uma tarifa total de 67% tende a retirar competitividade da carne brasileira.

O governo precisa acelerar três movimentos:

Negociar a ampliação ou redistribuição da cota chinesa;
Abrir mercados alternativos, como Japão, Coreia do Sul e novos destinos no Oriente Médio;
Reduzir a dependência excessiva de um único comprador.

O tarifaço chinês de 67% expõe uma fragilidade que ultrapassa Lula, Trump ou Xi Jinping: o Brasil produz em escala mundial, mas ainda concentra vendas demais em poucos mercados.

A defesa do interesse nacional precisa ter o mesmo vigor diante de aliados e adversários. Soberania que muda conforme a bandeira deixa de ser política de Estado e passa a parecer conveniência diplomática.

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O governo Lula age com prudência comercial ou usa dois pesos na política externa? Comente, compartilhe esta matéria e diga se o Brasil deveria endurecer também o discurso contra a China.

Fontes: Reuters; Associated Press; Diário do Poder; Abiec; CNA; CNN Brasil; Ministério da Agricultura e Pecuária; Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços; Ministério das Relações Exteriores; Departamento de Economia Rural do Paraná; Departamento de Agricultura dos Estados Unidos; Ministério do Comércio da China e S&P Global.

Da Redação.

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