Carretéis de até 20 mil metros são apreendidos; multa pode chegar a R$ 7,6 mil.
Linha mortal: GCM fecha o cerco e uma brincadeira tradicional voltou a acender o alerta em Limeira.
Com o avanço das férias escolares e o aumento das pipas no céu, a Guarda Civil Municipal intensificou a fiscalização contra o uso de cerol, linha chilena e outros materiais cortantes.
O motivo é grave: uma linha esticada sobre uma rua pode ser praticamente imperceptível para motociclistas, ciclistas e pedestres — e provocar acidentes de consequências irreversíveis.
A operação é conduzida pelo Pelotão Escolar da GCM, com ações em diferentes regiões da cidade e reforço principalmente aos finais de semana. Segundo a Prefeitura, julho e agosto são os meses em que tradicionalmente crescem as apreensões.
Carretéis equivalem a quilômetros de risco
Durante as fiscalizações mais recentes, os agentes encontraram carretéis com 5 mil, 10 mil e até 20 mil metros de linha.
Na prática, um único carretel pode carregar até 20 quilômetros de material cortante — distância suficiente para atravessar bairros inteiros caso a linha seja solta, rompida ou abandonada em vias públicas.
A quantidade chama a atenção porque mostra que o problema vai muito além de pequenas porções preparadas artesanalmente. O volume apreendido revela uma prática organizada, alimentada por materiais produzidos e distribuídos em grande escala.
Adultos de 30 e 40 anos entram no radar
Outro ponto identificado pela fiscalização quebra a ideia de que o problema está restrito a crianças e adolescentes.
O inspetor Edilson, da GCM de Limeira, afirmou que houve aumento no número de adultos flagrados utilizando linhas cortantes. Segundo ele, pessoas de 30 e 40 anos aparecem cada vez mais nas ocorrências.
A mudança de perfil amplia o debate sobre responsabilidade. Não se trata de uma criança que desconhece o risco, mas muitas vezes de adultos plenamente capazes de compreender as consequências da prática.
Multa pode ultrapassar R$ 7,6 mil
Em Limeira, a prática não é apenas perigosa. É proibida.
A Lei Municipal nº 6.405/2020 proíbe a industrialização, comercialização, armazenamento, transporte, distribuição e utilização de cerol, linha chilena ou qualquer outro material cortante aplicado em linhas de pipa.
Quem for flagrado pode receber multa de 100 UFESPs, equivalente a R$ 3.842 em 2026.
Em caso de reincidência, o valor dobra e chega a R$ 7.684, além da apreensão imediata do material.
Quando o responsável pela infração é menor de idade, os pais ou responsáveis legais também podem ser responsabilizados.
120 mil metros foram retirados das ruas em 2025
O tamanho do problema já havia sido exposto pela operação “Essa Brincadeira Mata”, realizada pela GCM em 2025.
Entre junho e outubro daquele ano, aproximadamente 120 mil metros de linhas cortantes foram apreendidos em Limeira. O material foi encaminhado para descarte seguro no aterro sanitário.
A ação foi coordenada pelo mesmo Pelotão Escolar e também teve à frente o inspetor Edilson. Mesmo após o encerramento parcial da operação, a corporação informou que a fiscalização continuaria.
Em outra ação realizada no bairro Walter Picinini, agentes encontraram 27 carretéis de linha cortante durante um único fim de semana.
Os números mostram que a atual ofensiva não ocorre por acaso: existe um histórico recente de grandes apreensões e reincidência.
Limeira já registrou vítimas
O risco não é apenas uma hipótese levantada pelas autoridades.
Em 2020, o entregador Mariano da Silva Neto, então com 20 anos, foi atingido por uma linha chilena enquanto trabalhava de motocicleta no Jardim Vista Alegre. Ele recebeu atendimento hospitalar e sobreviveu.
Em agosto de 2023, outro acidente envolvendo linha chilena provocou a queda de uma motocicleta na Avenida Prefeito Ari Levi Pereira, no bairro Belinha Ometto. Um homem de 63 anos e uma mulher de 52 ficaram feridos.
Já em 2025, a Prefeitura distribuiu antenas corta-pipa no Jardim do Lago. Entre os participantes estava o motoboy Robert Mota, que relatou ter sofrido um acidente provocado por linha com cerol no ano anterior.
Esses episódios demonstram que a fiscalização não pode ser tratada como exagero ou interferência em uma simples brincadeira. O perigo já passou pelas ruas da própria cidade.
São Paulo registrou 1.326 atendimentos em cinco meses
Dados divulgados pela Agência Brasil mostram uma dimensão ainda maior do problema.
Entre janeiro e maio de 2024, 1.326 pessoas foram atendidas em ambulatórios do Estado de São Paulo por cortes provocados por linhas com cerol.
A própria reportagem alertou que muitos estados não contabilizam essas ocorrências de forma específica, o que dificulta conhecer o número real de vítimas no Brasil.
Isso significa que os dados disponíveis podem representar apenas parte do problema.
Projeto federal continua parado no Senado
A Câmara dos Deputados aprovou, em 2024, uma proposta para criminalizar nacionalmente a fabricação, a venda, a posse e o uso irregular de linhas cortantes.
O texto prevê pena de um a três anos de detenção, multas para pessoas físicas e jurídicas, apreensão do material e responsabilização de adultos que permitirem a prática por menores.
Entretanto, até julho de 2026, o Projeto de Lei nº 339/2024 continuava parado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, aguardando a designação de um relator desde outubro de 2024. Portanto, as penas criminais previstas na proposta federal ainda não estão em vigor.
Enquanto Brasília não avança, estados e municípios precisam recorrer às próprias leis e operações locais para tentar conter o problema.
Um perigo que ultrapassa as fronteiras brasileiras
O uso de linhas abrasivas em disputas de pipas também preocupa autoridades de outros países.
Na Índia, onde o material é conhecido como manjha, tribunais e governos regionais adotaram proibições após sucessivas ocorrências envolvendo motociclistas, pedestres e animais.
Em janeiro de 2026, a Justiça do estado de Madhya Pradesh cobrou uma política mais rígida contra a comercialização do produto e responsabilização dos envolvidos, após novos casos registrados mesmo com a proibição existente.
O cenário internacional reforça uma conclusão: leis sem fiscalização permanente dificilmente retiram materiais clandestinos das ruas.
O desafio: fiscalização apenas nas férias ou durante o ano inteiro?
A intensificação das operações em julho e agosto é necessária, mas abre uma questão que deverá ser acompanhada pela sociedade: o combate continuará com a mesma força depois das férias?
As apreensões de 2025 e os casos anteriores indicam que o problema não desaparece quando as aulas retornam.
Além de abordar usuários, a fiscalização precisa alcançar os pontos de fabricação, armazenamento, venda e distribuição. Um carretel apreendido na rua resolve um risco imediato; interromper a cadeia de comercialização pode impedir que dezenas de novos carretéis entrem em circulação.
Como denunciar em Limeira
Casos de uso, transporte, armazenamento ou comercialização de cerol e linha chilena podem ser denunciados à Guarda Civil Municipal pelo telefone 153.
As denúncias podem ser feitas de forma anônima.
A recomendação é não confrontar diretamente os envolvidos e não tentar recolher linhas que estejam esticadas ou tensionadas. A localização deve ser informada às autoridades para que a abordagem seja realizada com segurança.
Segurança depende de responsabilidade
Empinar pipa continua sendo uma atividade legítima de lazer quando realizada em espaço aberto, distante da rede elétrica, das vias movimentadas e sem qualquer produto cortante.
O problema começa quando a diversão de uma pessoa coloca famílias inteiras em risco.
Pais precisam acompanhar seus filhos. Comerciantes devem recusar a venda de materiais proibidos. Adultos que usam linha chilena devem compreender que não estão participando de uma brincadeira inocente — estão assumindo o risco de provocar uma tragédia.
A fiscalização da GCM é uma parte da solução. A responsabilidade individual e a participação da população completam o trabalho.
Você já encontrou cerol ou linha chilena no seu bairro?
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Uma denúncia pode retirar quilômetros de linha cortante das ruas — e evitar que uma família seja atingida pela irresponsabilidade de alguém.
Fonte: Governo de Limeira.
Da Redação.
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