FMI projeta avanço do endividamento enquanto juros e déficits pressionam as contas públicas.
O Brasil pode terminar 2026 com uma dívida pública equivalente a 96,5% de tudo o que o país produz em um ano.
A projeção consta na base do Fundo Monetário Internacional e coloca novamente as contas públicas brasileiras no centro do debate econômico e eleitoral.
Mas existe um detalhe essencial: o percentual divulgado pelo FMI utiliza uma metodologia diferente daquela normalmente apresentada pelo Banco Central.
Isso significa que o número não é falso — mas também não pode ser comparado diretamente, sem explicação, aos indicadores nacionais.
A conclusão permanece preocupante: independentemente do método utilizado, a dívida brasileira está crescendo e ainda não apresenta uma trajetória segura de estabilização.
O alerta de 96,5% do PIB
Segundo o FMI, a dívida bruta do governo geral brasileiro deve atingir 96,5% do Produto Interno Bruto em 2026.
O percentual considera não apenas obrigações do governo federal, dos estados e dos municípios, mas também títulos públicos presentes no balanço do Banco Central.
Essa inclusão aumenta consideravelmente o resultado quando comparado à metodologia brasileira mais divulgada.
Na prática, o FMI tenta utilizar um padrão que permita comparar o Brasil com outros países. O próprio organismo, entretanto, reconhece que diferenças de cobertura, instrumentos e características nacionais impedem que os números sejam universalmente comparáveis.
Ou seja: 96,5% é uma projeção válida dentro da metodologia internacional do FMI, mas não representa o mesmo indicador de 81,1% divulgado pelo Banco Central.
Banco Central aponta dívida de R$ 10,6 trilhões
Pelos critérios oficiais utilizados no Brasil, a Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 81,1% do PIB em maio de 2026.
O valor corresponde a aproximadamente R$ 10,6 trilhões.
Em apenas um mês, a relação dívida/PIB subiu 0,9 ponto percentual. No acumulado do ano, o avanço foi de 2,4 pontos percentuais.
Segundo o Banco Central, o crescimento ocorreu principalmente devido à incorporação de juros e às novas emissões de dívida.
Portanto, embora exista uma diferença de aproximadamente 15 pontos percentuais entre os números do FMI e do Banco Central, as duas medições apontam na mesma direção: para cima.
Por que os números são tão diferentes?
A divergência é metodológica.
Metodologia do Banco Central
O indicador nacional considera as obrigações do governo federal, do INSS, dos estados e dos municípios, mas exclui parte dos títulos públicos mantidos pelo próprio Banco Central.
Metodologia do FMI
O Fundo adota uma cobertura mais ampla e inclui títulos do Tesouro presentes no balanço da autoridade monetária.
A diferença não começou no atual governo. Economistas, autoridades fiscais e instituições brasileiras discutem há anos qual conceito representa melhor a situação do país.
O Ministério da Fazenda também argumenta que as projeções do FMI ficam acima das estimativas oficiais justamente por causa dessa metodologia mais abrangente.
Ainda assim, a explicação técnica não elimina o problema fiscal.
Mesmo pelo cálculo mais favorável do Banco Central, a dívida encontra-se em trajetória ascendente.
O verdadeiro perigo está nos juros
O tamanho da dívida é apenas parte da história.
O maior problema brasileiro é o custo necessário para financiar esse endividamento.
Nos 12 meses encerrados em maio de 2026, os juros nominais pagos pelo setor público chegaram a aproximadamente R$ 1,111 trilhão, equivalente a 8,48% do PIB.
No mesmo período anterior, os juros haviam somado R$ 946,1 bilhões.
O avanço foi superior a R$ 160 bilhões em apenas um ano.
Quando o governo arrecada menos do que gasta e ainda precisa pagar juros elevados, é obrigado a emitir novos títulos.
O ciclo funciona assim:
déficit gera dívida, dívida gera juros e juros alimentam uma dívida ainda maior.
Essa dinâmica dificulta investimentos públicos, pressiona o orçamento e aumenta a disputa por recursos que poderiam ser destinados à infraestrutura, saúde, educação e segurança.
Déficit nominal ultrapassa R$ 1,2 trilhão
O setor público consolidado acumulou, nos 12 meses encerrados em maio, um déficit nominal de aproximadamente R$ 1,260 trilhão.
O número equivale a 9,62% do PIB e inclui tanto o resultado primário quanto o pagamento dos juros.
Já o déficit primário acumulado chegou a R$ 149 bilhões, equivalente a 1,14% do PIB.
O dado mostra que o problema não decorre apenas da Selic elevada.
Existe também uma dificuldade persistente de equilibrar receitas e despesas antes mesmo do pagamento dos juros.
Em maio, o Governo Central registrou déficit primário de R$ 53,3 bilhões. A receita líquida cresceu em termos reais, mas as despesas avançaram em ritmo ainda maior.
Dívida cresceu durante o terceiro mandato de Lula
O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou em 2023, quando a dívida havia recuado depois do pico registrado durante a pandemia.
Desde então, o indicador voltou a subir.
Pela metodologia do Banco Central, a dívida havia terminado 2022 próxima de 72% do PIB. Em maio de 2026, já alcançava 81,1%.
Isso representa uma elevação superior a nove pontos percentuais durante o atual mandato.
Pela metodologia internacional utilizada pelo FMI, a projeção para o encerramento de 2026 chega aos 96,5%.
O governo aponta fatores como juros elevados, mudanças metodológicas e despesas obrigatórias. Críticos da política econômica, porém, cobram controle mais firme dos gastos, revisão de benefícios fiscais e medidas estruturais que reduzam o déficit.
Arcabouço fiscal ainda não conseguiu inverter a curva
O novo arcabouço fiscal foi apresentado pelo governo como substituto do teto de gastos e como instrumento capaz de combinar responsabilidade fiscal com crescimento econômico.
A regra limita o avanço das despesas a uma parcela do crescimento das receitas.
O problema é que despesas obrigatórias, benefícios previdenciários, vinculações constitucionais e programas públicos continuam pressionando o orçamento.
Quando a arrecadação não cresce o suficiente, o governo enfrenta três opções politicamente difíceis:
cortar despesas;
aumentar impostos;
aceitar déficits e emitir mais dívida.
Nos últimos anos, parte relevante da estratégia fiscal concentrou-se no aumento da arrecadação.
Entretanto, receitas adicionais não produziram, até agora, uma queda consistente do endividamento.
IFI prevê decisões difíceis para o próximo presidente
A Instituição Fiscal Independente do Senado apresenta números diferentes dos projetados pelo FMI, mas também identifica uma trajetória preocupante.
No cenário-base mais recente, a IFI estima dívida bruta de 82,5% do PIB em 2026, ultrapassando 100% em 2032 e chegando a 115% em 2036.
A instituição calcula que o Brasil precisaria produzir superávit primário de aproximadamente 2,1% do PIB por ano para estabilizar a dívida.
Isso significa arrecadar, antes dos juros, consideravelmente mais do que o governo gasta — algo distante do cenário atual.
A IFI também alerta que o próximo presidente deverá enfrentar decisões fiscais complexas, envolvendo despesas obrigatórias, regras previdenciárias, benefícios tributários e sustentabilidade do orçamento.
O Brasil está quebrado?
Não.
O Brasil possui reservas internacionais relevantes, dívida majoritariamente denominada em reais, mercado financeiro desenvolvido e capacidade de emitir títulos em moeda nacional.
Portanto, o país não se encontra diante de uma insolvência imediata.
Mas isso não significa que a dívida possa crescer indefinidamente sem consequências.
Quanto maior a percepção de risco, maior tende a ser o retorno exigido pelos investidores para financiar o governo.
Isso pode provocar:
juros elevados por mais tempo;
crédito mais caro para empresas e famílias;
redução dos investimentos;
menor crescimento econômico;
pressão sobre o câmbio e a inflação;
necessidade de mais impostos ou cortes futuros.
O problema fiscal raramente aparece de uma só vez. Ele se manifesta gradualmente no financiamento imobiliário, no empréstimo empresarial, no cartão de crédito, no preço dos produtos e na falta de espaço para investimentos públicos.
A conta não pertence apenas a um governo
O crescimento da dívida brasileira atravessa diferentes governos, crises internacionais, recessões e mudanças nas regras fiscais.
A pandemia elevou drasticamente o endividamento em 2020. A inflação e o crescimento nominal ajudaram a reduzir a relação dívida/PIB nos anos seguintes.
Contudo, a partir de 2023, o indicador voltou a avançar.
Por isso, atribuir todo o problema exclusivamente ao atual governo seria uma simplificação.
Também seria incorreto, porém, ignorar que as decisões tomadas desde 2023 influenciaram o ritmo das despesas, as metas fiscais e a confiança dos agentes econômicos.
Governos herdam problemas, mas também respondem pelas políticas que executam.
Projeção não é sentença — mas exige reação
Os 96,5% projetados pelo FMI ainda não representam um resultado consolidado de dezembro.
Trata-se de uma estimativa baseada em hipóteses sobre crescimento, arrecadação, despesas, juros e câmbio.
O número pode melhorar caso o PIB cresça mais, os juros caiam, a arrecadação surpreenda positivamente ou o governo produza superávits.
Também pode piorar se houver desaceleração econômica, novas despesas, frustração de receitas ou manutenção prolongada dos juros elevados.
O ponto central não está apenas em saber se a dívida terminará o ano em 82%, 90% ou 96,5% do PIB.
A pergunta decisiva é outra:
quando o Brasil apresentará um plano crível para interromper essa trajetória?
Sem medidas estruturais, o risco é que a discussão fiscal seja novamente adiada — e a conta seja transferida para o próximo governo, para os contribuintes e para as futuras gerações.
Você acredita que o governo conseguirá controlar a dívida sem aumentar impostos ou cortar despesas? Deixe sua opinião e compartilhe esta matéria.
Fontes: Fundo Monetário Internacional; Banco Central do Brasil; Secretaria do Tesouro Nacional; Instituição Fiscal Independente; Senado Federal; Ministério da Fazenda; CNN Brasil; Folha de S.Paulo; Gazeta do Povo; Revista Oeste e Hora Brasília.
Da Redação.
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