CadÚnico salta 97,4%; governo cita cadastro melhor, mas alta expõe falha social.
O número que não cabe no discurso oficial
392,4 mil pessoas.
Esse é o total de brasileiros registrados como população em situação de rua no Cadastro Único em junho de 2026.
Em dezembro de 2022, último mês antes do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eram 198,7 mil. A diferença representa 193,6 mil registros adicionais e uma alta de 97,4% em três anos e meio.
Em termos puramente matemáticos, o crescimento líquido equivale a aproximadamente:
4,6 mil registros por mês;
152 registros por dia;
um novo registro a cada dez minutos.
A imagem é brutal. Mas existe uma distinção indispensável: isso não significa que exatamente 152 brasileiros tenham perdido a casa todos os dias. O cálculo representa o aumento líquido da base cadastral, que também pode ser influenciado por novos cadastros, atualizações, exclusões e melhoria na identificação das pessoas.
Mesmo com essa ressalva, a tendência é grave demais para ser tratada como simples detalhe estatístico.
O que o CadÚnico realmente está contando?
O Cadastro Único não é um censo nacional realizado simultaneamente nas ruas. Ele é uma base administrativa alimentada principalmente pelos municípios e utilizada para identificar pessoas em situação de vulnerabilidade e permitir o acesso a programas sociais.
A definição oficial de população em situação de rua também é mais ampla do que a expressão “pessoas dormindo na calçada”. Ela inclui quem utiliza espaços públicos como moradia ou sobrevivência, de maneira temporária ou permanente, e também quem está em unidades de acolhimento para pernoite ou moradia provisória.
Portanto, o número de 392,4 mil não representa exclusivamente pessoas dormindo ao relento.
Isso não torna o dado menos preocupante. Pelo contrário: mostra uma população enorme vivendo sem moradia convencional estável, dependendo de abrigos, serviços públicos ou estruturas improvisadas.
A própria Gazeta do Povo, responsável pelo levantamento que ganhou repercussão nacional, reconhece que a alta pode refletir tanto um agravamento real da crise quanto uma melhora no cadastramento municipal. A comparação continua relevante porque utiliza a mesma base ao longo do período.
A crise não começou em janeiro de 2023
Seria jornalisticamente irresponsável afirmar que o governo Lula criou sozinho a crise das ruas.
Em dezembro de 2022, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estimou que o Brasil já possuía aproximadamente 281,5 mil pessoas em situação de rua, crescimento de 38% entre 2019 e 2022. O estudo mostrou que a deterioração vinha sendo acelerada pela pandemia, pelo enfraquecimento da renda e pelas dificuldades habitacionais.
Esse número do Ipea era uma estimativa produzida por metodologia própria e, por isso, não deve ser comparado diretamente com os 198,7 mil registros do CadÚnico em dezembro de 2022.
A diferença entre as duas medições revela justamente um dos grandes problemas brasileiros: o país ainda não possui uma contagem nacional única, periódica e suficientemente precisa dessa população.
A crise, portanto, atravessa governos.
Mas o fato de o problema ser antigo não elimina a responsabilidade de quem está no poder. O governo atual foi eleito prometendo prioridade absoluta aos mais pobres e precisa explicar por que a curva continuou avançando em ritmo tão elevado.
Governo atribui parte da alta a cadastro mais eficiente
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social sustenta que o crescimento decorre de uma combinação de fatores:
fragilização dos vínculos familiares;
casos de violência e abuso;
desemprego;
crises econômicas;
eventos climáticos extremos;
aumento da eficiência do Cadastro Único.
Segundo o ministério, as capacitações de entrevistadores e operadores do cadastro foram retomadas em 2023, o que teria permitido localizar pessoas que anteriormente estavam invisíveis para o poder público.
A Gazeta do Povo questionou a pasta sobre estudos técnicos que comprovassem uma subnotificação específica durante o governo anterior. O ministério apresentou a explicação geral, mas não indicou à reportagem um estudo que quantificasse quanto do aumento atual seria apenas correção cadastral.
O deputado federal Osmar Terra, ex-ministro da Cidadania, contesta essa versão. Ele argumenta que as informações são coletadas pelas equipes municipais, muitas das quais continuam trabalhando independentemente da mudança de presidente.
As duas posições precisam ser consideradas.
Melhorar o cadastro realmente pode elevar o número oficial sem que todas aquelas pessoas tenham chegado às ruas recentemente. Mas dizer que quase toda a alta é apenas resultado de uma contagem melhor, sem demonstrar essa proporção, também seria uma conclusão conveniente demais.
Plano de R$ 982 milhões não interrompeu a curva
Em 11 de dezembro de 2023, Lula lançou o Plano Nacional Ruas Visíveis, envolvendo 11 ministérios e um investimento inicial anunciado de R$ 982 milhões.
O projeto reuniu ações de assistência social, saúde, habitação, segurança alimentar, trabalho, educação, cidadania e produção de dados.
Naquele mês, o CadÚnico registrava aproximadamente 262,5 mil pessoas em situação de rua.
Em junho de 2026, a base chegou a 392,4 mil. Isso representa cerca de 130 mil registros adicionais desde o lançamento do plano.
Esse crescimento, isoladamente, não prova que o programa tenha fracassado. Uma política desse tipo pode simultaneamente ampliar o cadastramento, oferecer atendimento e ainda enfrentar uma entrada contínua de pessoas na vulnerabilidade.
Mas o número prova que o plano ainda não conseguiu reverter a trajetória nacional.
E existe uma pergunta inevitável: quanto do valor anunciado foi efetivamente aplicado e quais resultados permanentes foram alcançados?
Em atualização divulgada pelo Ministério dos Direitos Humanos em 3 de julho de 2026, o governo informou que:
123 entes federativos haviam aderido ao plano de ação e monitoramento;
29 organizações da sociedade civil administravam equipamentos do Programa Cidadania PopRua;
R$ 34,3 milhões apareciam como repasses realizados nos dados de execução apresentados;
o Sudeste concentrava mais de R$ 15,6 milhões desse montante.
Não é possível concluir, apenas com esse comunicado, que os R$ 34,3 milhões representem toda a execução dos R$ 982 milhões anunciados. O Ruas Visíveis envolve diversos ministérios, fundos, ações e fontes orçamentárias.
É justamente por isso que o governo deveria apresentar um painel consolidado e auditável, mostrando:
valor anunciado;
valor empenhado;
valor efetivamente pago;
municípios atendidos;
pessoas beneficiadas;
pessoas que deixaram a situação de rua de maneira permanente.
Sem essa ligação entre dinheiro, meta e resultado, a população recebe números de investimento, mas não consegue medir a transformação real.
Norte e Nordeste lideram avanço proporcional
Embora o Sudeste continue concentrando os maiores contingentes absolutos, o crescimento proporcional mais intenso ocorreu em outras regiões.
Entre janeiro de 2023 e junho de 2026:
o Norte passou de aproximadamente 4,9 mil para 22,8 mil registros, alta de 367%;
o Nordeste avançou de 29,1 mil para cerca de 61 mil, crescimento de 109%;
o Sudeste teve alta de 85%;
o Sul cresceu 83%;
o Centro-Oeste avançou 79%.
Em Roraima, os registros saltaram de 1.460 para 10.162, quase sete vezes mais. O estado também enfrenta pressão específica decorrente do intenso fluxo migratório pela fronteira com a Venezuela.
São Paulo continua com o maior contingente absoluto do país e registrou crescimento de aproximadamente 88% no período analisado.
Os números desmontam qualquer tentativa de apresentar a crise como um fenômeno exclusivo de uma prefeitura, de uma capital ou de uma região.
É um problema nacional, mas com causas e características locais diferentes.
A crise também está perto da nossa região
Campinas realizou, entre março e abril de 2024, um levantamento censitário específico sobre a população em situação de rua.
Foram identificadas 1.557 pessoas:
1.300 vivendo diretamente nas ruas;
257 em serviços de acolhimento institucional.
A maior concentração estava nas regiões centrais da cidade.
O dado de Campinas ajuda a entender por que um censo municipal e o CadÚnico podem apresentar números diferentes. O censo tenta localizar pessoas em determinado período; o cadastro acompanha indivíduos e famílias identificados pela rede socioassistencial.
Americana, Santa Bárbara d’Oeste e demais cidades da região deveriam publicar periodicamente informações equivalentes, com metodologia clara, histórico anual e resultados das políticas de acolhimento, tratamento, reinserção familiar, capacitação e trabalho.
Sem dados locais transparentes, o problema só ganha visibilidade quando chega às praças, terminais, marquises e corredores comerciais.
O mundo também enfrenta dificuldade para contar
A ausência de uma metodologia perfeita não é exclusividade brasileira.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico destaca que países utilizam diferentes instrumentos: contagens nas ruas, dados de abrigos, registros administrativos, censos, pesquisas e listas individualizadas.
Cada método enxerga uma parte do problema e deixa outra parte invisível. Uma contagem realizada em uma única noite, por exemplo, não pode ser comparada diretamente com uma base que acompanha pessoas atendidas durante meses.
Experiências internacionais também inspiraram o modelo conhecido como Housing First, ou “moradia primeiro”. A estratégia parte da oferta de uma habitação estável e acrescenta acompanhamento de saúde, assistência, tratamento e reinserção social.
O Brasil incorporou uma versão dessa abordagem, chamada Moradia Cidadã, dentro das ações relacionadas ao Ruas Visíveis.
Dar um teto é essencial. Mas uma política duradoura também precisa enfrentar dependência química, transtornos mentais, desemprego, violência doméstica, ruptura familiar, documentação, qualificação profissional e custo da moradia.
O que uma política séria deveria entregar
Uma resposta responsável não pode se limitar a distribuição de benefícios nem a ações para retirar pessoas de determinadas áreas urbanas.
O país precisa de cinco frentes trabalhando simultaneamente:
1. Prevenção
Identificar famílias próximas do despejo, da ruptura familiar ou da perda total de renda antes que cheguem às ruas.
2. Tratamento e saúde mental
Ampliar equipes especializadas, atendimento psiquiátrico, recuperação de dependências e acompanhamento continuado.
3. Trabalho e autonomia
Criar pontes reais com empresas, capacitação profissional, documentação, moradia transitória e reconstrução da renda.
4. Segurança e ordem pública
Proteger pessoas vulneráveis contra violência, exploração, tráfico, organizações criminosas e apropriação indevida de benefícios.
5. Avaliação por resultados
Medir não apenas quantas pessoas foram atendidas, mas quantas recuperaram moradia estável, renda e autonomia depois de seis meses, um ano e dois anos.
Compaixão sem gestão produz dependência. Ordem sem humanidade produz abandono. Uma política eficiente precisa combinar dignidade, responsabilidade e resultado.
O que os dados provam — e o que não provam
Os dados não provam que Lula tenha colocado pessoalmente 193 mil pessoas nas ruas.
Também não provam que todo o crescimento seja apenas consequência de um cadastro mais eficiente.
O que eles demonstram objetivamente é que, durante o terceiro mandato de Lula, a população registrada nessa condição no CadÚnico quase dobrou.
Demonstram ainda que o Plano Ruas Visíveis, até junho de 2026, não foi acompanhado por uma reversão da curva nacional.
O governo tem o direito de explicar as limitações do cadastro. Mas também possui o dever de apresentar metas, execução orçamentária consolidada e resultados verificáveis.
A oposição tem o direito de cobrar. Mas deve evitar transformar um registro administrativo em prova automática de causalidade política.
A verdade mais desconfortável está no meio dessa disputa: o Brasil continua encontrando mais pessoas em situação de rua do que conseguindo reconstruir vidas fora dela.
Na sua cidade, a presença de pessoas em situação de rua aumentou ou diminuiu nos últimos anos? Comente o nome do município e conte quais ações estão funcionando — ou falhando — sem fotografar nem expor pessoas vulneráveis. Compartilhe esta reportagem. Quanto mais transparência houver sobre os dados, os recursos e os resultados, menor será o espaço para propaganda e maior será a pressão por soluções reais.
Fontes: Cadastro Único; Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social; Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania; Ministério da Saúde; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua; Universidade Federal de Minas Gerais e Gazeta do Povo.
Da Redação.
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