Aos 60, Diane desafia o tempo em “Desatino”

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Solo nascido no isolamento celebra 30 anos da Confraria em apresentação única.

Uma mulher, um banco e 11 gavetas: o que vai acontecer no palco de Campinas?

Uma mulher. Um pequeno banco. Onze gavetas de madeira. E três décadas de história transformadas em movimento.

Com uma montagem aparentemente simples, mas carregada de simbolismo, a bailarina e coreógrafa Diane Ichimaru sobe ao palco do Teatro Sesc Campinas nesta sexta-feira, 10 de julho de 2026, às 20h, para a apresentação única do espetáculo “Desatino”.

O solo integra as comemorações dos 30 anos da Confraria da Dança, companhia fundada em Campinas e reconhecida por sua pesquisa autoral na dança contemporânea. A montagem tem duração de aproximadamente 50 minutos e classificação livre.

Mas “Desatino” não é apenas uma celebração de aniversário.

É uma obra criada em meio ao isolamento da pandemia, construída a partir de lembranças, perdas, fragilidades e da decisão de continuar em movimento quando o mundo inteiro parecia ter parado.

O que a apuração confirma

O cruzamento de registros oficiais e publicações especializadas confirma três pontos importantes sobre a apresentação.

A Confraria da Dança foi fundada em 1996 por Diane Ichimaru e Marcelo Rodrigues, em Campinas. Ao longo da trajetória, o grupo acumulou projetos e premiações ligados à Funarte, ao ProAC, ao Sesi-SP, à Cultura Inglesa e à Associação Paulista dos Críticos de Arte.

Também está documentado que Diane recebeu o Prêmio APCA de Criadora-Intérprete, referente à produção de dança de 2009, por sua atuação no solo “Adverso”. O reconhecimento foi entregue em abril de 2010, durante cerimônia realizada no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros.

Já “Desatino” apareceu inicialmente na programação digital #EmCasaComSesc, em outubro de 2020, quando espetáculos foram adaptados para apresentações sem público durante a crise sanitária. A versão presencial estreou em 2022 e agora chega pela primeira vez aos palcos de Campinas.

Onze gavetas que escondem muito mais do que objetos

No palco, as gavetas não funcionam apenas como cenário.

Elas são movimentadas e reorganizadas até assumirem diferentes significados: tornam-se janela, mesa de cozinha, espelho e até a representação claustrofóbica de um porão.

Cada transformação abre uma espécie de compartimento da memória.

Diane recupera fragmentos de dois trabalhos importantes de sua carreira: “Carta Para Não Mandar ou Cantiga Interrompida”, criado em 2004, e “Adverso”, de 2009.

A união dessas obras não busca reconstruir o passado exatamente como ele aconteceu. O objetivo é mostrar como lembranças antigas ganham novos sentidos quando observadas por alguém que atravessou o tempo, o isolamento e as incertezas da pandemia.

Uma criação nascida quando o mundo parou

“Desatino” começou a ser desenvolvido em um dos momentos mais duros para a produção cultural recente.

Com teatros fechados, plateias vazias e profissionais impedidos de trabalhar presencialmente, artistas precisaram transformar casas, salas e espaços improvisados em palcos.

Foi nesse contexto que Diane revisitou seus trabalhos anteriores.

Segundo a artista, memórias, silêncios, fragilidades e derrotas passaram a produzir outros significados em seu corpo. A obra nasceu da necessidade de “seguir em movimento”, mesmo diante de forças que empurravam todos para a imobilidade.

O que poderia ter permanecido como um registro emergencial da pandemia ganhou vida própria.

Depois da transmissão digital de 2020, o trabalho chegou ao palco presencialmente em 2022. Quatro anos depois, desembarca na própria cidade onde a Confraria construiu sua história.

Aos 60 anos, o corpo também vira arquivo

Diane Ichimaru chega ao espetáculo aos 60 anos e com mais de quatro décadas dedicadas à criação artística, segundo as informações divulgadas pela produção.

Em uma sociedade frequentemente obcecada pela novidade, pela velocidade e pelo descarte, sua presença coloca outra questão no centro do palco: quanto vale uma trajetória construída sem atalhos?

Em “Desatino”, a maturidade não aparece como limitação. Ela é matéria cênica.

O corpo carrega experiências que não podem ser reproduzidas apenas com técnica. Cada movimento reúne lembranças de espetáculos anteriores, mudanças culturais, dificuldades da profissão e transformações pessoais.

A longevidade de Diane também confronta a ideia de que a dança pertence apenas aos corpos jovens. Na montagem, experiência, precisão e memória assumem o lugar do exibicionismo.

Trinta anos de dança produzida longe da capital

A história da Confraria também chama atenção por outro motivo: o grupo manteve sua base em Campinas.

Embora grande parte do circuito cultural brasileiro esteja concentrada nas capitais, Diane Ichimaru e Marcelo Rodrigues desenvolveram projetos, oficinas e espetáculos voltados a cidades do interior paulista.

O repertório reúne produções para adultos, crianças, estudantes de arte, artistas profissionais e pessoas da terceira idade.

Entre os reconhecimentos registrados pela companhia estão projetos contemplados pela Funarte, ProAC, Sesi-SP, Itaú Cultural, Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, Cultura Inglesa e APCA.

Completar 30 anos nesse cenário não representa apenas permanência artística. Representa capacidade de produzir, circular e formar público em um setor marcado por projetos temporários e dificuldades de continuidade.

Uma obra praticamente conduzida por uma única artista

Diane não ocupa apenas o papel de intérprete.

Ela assina a dramaturgia corporal e textual, a direção, o figurino e a concepção cênica do espetáculo.

A trilha musical é composta e executada por Rafael dos Santos, responsável por acompanhar as mudanças emocionais da narrativa. O desenho de luz é de Marcelo Rodrigues, cofundador da Confraria, que transforma o palco em ambientes íntimos, fechados e, em alguns momentos, inquietantes.

A concentração de tantas funções reforça o caráter autoral da montagem.

Não se trata de uma coreografia construída para exibir movimentos isolados, mas de uma narrativa em que corpo, som, objetos, iluminação e silêncio trabalham juntos.

Por que “Desatino” pode atingir até quem não acompanha dança?

O espetáculo não exige conhecimento prévio sobre dança contemporânea.

Seus temas são reconhecíveis: envelhecimento, isolamento, derrotas, lembranças familiares, medo, silêncio e a necessidade de continuar.

As gavetas podem representar diferentes memórias para cada pessoa. Um objeto aparentemente comum pode lembrar a cozinha de uma avó, um quarto antigo, cartas nunca enviadas ou situações que alguém preferiu manter escondidas.

É justamente nessa abertura que a obra busca se conectar com o público.

Em vez de entregar uma história fechada, “Desatino” oferece imagens para que cada espectador confronte as próprias lembranças.

Espetáculo: “Desatino” — Confraria da Dança

Data: 10 de julho de 2026, sexta-feira
Horário: 20h
Duração: 50 minutos
Local: Teatro Sesc Campinas
Endereço: Rua Dom José I, 270/333 — Bonfim — Campinas/SP
Classificação indicativa: livre

Ingressos:

R$ 15 para Credencial Plena
R$ 25 para meia-entrada
R$ 50 para entrada inteira

As vendas são realizadas pelo aplicativo Credencial Sesc SP e pela Central de Relacionamento Digital do Sesc. A disponibilidade deve ser consultada nos canais oficiais antes do deslocamento.


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Fontes: Sesc São Paulo; Prefeitura de Campinas; Campinas.com.br; Carta Campinas; Confraria da Dança; Conectedance; Dança em Pauta; Agenda Viva SP; Jornal RMC e Click on Dance.

Da Redação.

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