Aprovação bate recorde em 18 meses, mas ranking nacional expõe pressão no sistema
Piracicaba voltou a confiar na água que sai da torneira?
A pergunta parece simples. Mas a resposta carrega números positivos, obras milionárias, cobrança pública e um alerta que não pode ser ignorado.
Segundo levantamento do INDSAT, divulgado em maio de 2026, a aprovação da qualidade da água em Piracicaba chegou a 52,5%, o maior índice dos últimos 18 meses. O avanço foi de 11,9 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, feita em fevereiro.
Na prática, mais moradores passaram a avaliar a água como “boa” ou “ótima”. E isso muda o clima político, técnico e social em torno de um dos assuntos mais sensíveis da cidade: abastecimento.
Mas existe um outro lado nessa história.
Enquanto a percepção da população melhora, Piracicaba ainda aparece pressionada em indicadores nacionais de saneamento. No Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, a cidade caiu da 24ª para a 35ª posição entre os 100 municípios mais populosos do país.
Ou seja: a torneira começa a recuperar confiança, mas o sistema ainda precisa provar que a virada é estrutural — e não apenas momentânea.
O número que acendeu o otimismo
O dado mais forte da nova pesquisa é direto: 52,5% de aprovação.
Esse percentual é formado por avaliações “ótimo” e “bom”. Em fevereiro, o índice positivo era de 40,6%. O salto, portanto, foi expressivo.
A rejeição também caiu. As avaliações negativas passaram de 30,9% para 24,8%, o menor patamar do período analisado.
O grau geral de satisfação atingiu 643 pontos, mantendo Piracicaba em grau médio de satisfação, mas com a melhor pontuação desde janeiro de 2025.
É uma recuperação relevante, principalmente porque água não é um serviço qualquer. Quando a água falha, a vida trava. Afeta casa, comércio, escola, saúde, rotina e confiança na gestão pública.
O que mudou no caminho da água?
A Prefeitura de Piracicaba e o Semae apontam uma sequência de obras e intervenções como responsáveis pela melhora percebida pela população.
O principal símbolo dessa nova fase é a modernização da ETA II Luiz de Queiroz, estação estratégica para o abastecimento da cidade.
A obra recebeu investimento de aproximadamente R$ 9,65 milhões e incluiu:
instalação de raspadores mecanizados;
sistema automatizado para remoção de lodo;
reforma dos decantadores;
novos módulos tubulares e canaletas;
substituição dos materiais filtrantes em cinco filtros;
aumento da eficiência no tratamento da água.
A capacidade da ETA II passou de 64,8 milhões para até 86,4 milhões de litros por dia.

Esse aumento é importante porque a estação atende uma região extensa da cidade e impacta diretamente mais de 120 mil moradores, em mais de 170 bairros.
A frase que resume o problema antigo
O prefeito Helinho Zanatta afirmou que a atual gestão encontrou um sistema de abastecimento com problemas históricos e que milhares de famílias viviam sob insegurança hídrica.
Segundo ele, os investimentos começaram a chegar à casa das pessoas por dois caminhos: mais regularidade no abastecimento e melhora na qualidade da água.
O presidente do Semae, Ronald Pereira, também sustenta que a recuperação vem de um trabalho contínuo de modernização, reforço de estruturas antigas e planejamento para garantir mais segurança hídrica.
Mas aqui entra o ponto central: a cidade não pode se contentar apenas com a percepção positiva.
Porque percepção é importante. Mas saneamento exige indicador duro, obra entregue, manutenção contínua, redução de perdas e capacidade de expansão.
O alerta que a cidade não pode varrer para baixo do tapete
O Ranking do Saneamento 2026 trouxe um choque de realidade.
Piracicaba caiu 11 posições, saindo do 24º para o 35º lugar. A queda foi explicada principalmente por dois fatores: redução no atendimento de água e queda no investimento médio por habitante.
Na tabela do ranking, Piracicaba aparece com:
92,23% de atendimento de água;
99,69% de coleta de esgoto;
119,55% de tratamento de esgoto;
50,91% de perdas na distribuição de água.
Esse último número merece atenção especial.
Perda de água é o volume produzido que não chega de forma eficiente ao destino final. Pode envolver vazamentos, falhas de medição, ligações irregulares e problemas operacionais.
Quando uma cidade perde muita água, ela trata, bombeia, gasta energia, usa estrutura pública — e parte desse esforço simplesmente desaparece no caminho.
É aí que a pauta deixa de ser apenas “água melhorou” e vira uma pergunta mais incômoda:
Piracicaba está melhorando a água ou começando a corrigir uma dívida antiga com seu próprio sistema?
O avanço existe, mas a cobrança também precisa existir
A nova pesquisa mostra que a população percebe melhora. Isso é notícia.
Mas o ranking nacional mostra que ainda há fragilidades. Isso também é notícia.
A leitura mais honesta é esta: Piracicaba vive um momento de recuperação no abastecimento, mas ainda precisa transformar obras recentes em resultado permanente.
A melhora da aprovação não encerra o assunto. Ela abre uma nova fase de cobrança.
Agora, a população deve acompanhar se os investimentos prometidos e contratados vão de fato reduzir perdas, ampliar reservação, trocar redes antigas e evitar que bairros voltem a conviver com torneira fraca, água irregular ou interrupções frequentes.
O que está em jogo até 2028
A Prefeitura afirma que há obras em andamento e investimentos contratados para os próximos anos, incluindo novas adutoras, reservatórios, troca de redes antigas e ampliação da estrutura de distribuição.
Entre os projetos citados estão:
ampliação da ETA Capim Fino;
novos reservatórios com capacidade para milhões de litros;
novas adutoras;
sistemas inteligentes de controle;
substituição de redes antigas;
reforço do sistema Dois Córregos–Cecap;
obras para reduzir perdas e aumentar a segurança hídrica.
A promessa é robusta. Mas o teste real será no dia a dia.
Porque saneamento não se mede só em placa de inauguração, discurso oficial ou número de aprovação. Mede-se na torneira aberta, na conta paga, na regularidade do serviço e na confiança do morador.
A pergunta que fica para Piracicaba
A água melhorou? Os números de satisfação indicam que sim.
O sistema está resolvido? Ainda não.
A cidade tem motivos para reconhecer avanços, mas também tem razões para manter lupa em cima do Semae, da Prefeitura e dos investimentos anunciados.
Piracicaba começa a virar uma página no abastecimento. Mas, para a população, a única virada que importa é simples:
abrir a torneira todos os dias e ter água com qualidade, regularidade e confiança.
Você mora em Piracicaba? A água melhorou no seu bairro ou ainda tem problema? Comente sua região, marque alguém que precisa ver essa matéria e envie para quem acompanha de perto os serviços públicos da cidade. A experiência do morador também é parte da fiscalização.
Fonte: Governo de Piracicaba.
Da Redação.
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