Ataques travam refinarias, ampliam filas e expõem a vulnerabilidade energética do Kremlin
Uma das maiores potências petrolíferas do planeta está vivendo uma cena que parecia impossível: postos fechados, gasolina racionada, motoristas enfrentando horas de espera e o governo buscando combustível no exterior.
A ofensiva de drones ucranianos contra refinarias e instalações de armazenamento espalhou problemas de abastecimento por praticamente toda a Rússia. Uma estimativa divulgada pelo Financial Times aponta que aproximadamente 50 milhões de russos já vivem em áreas afetadas pela crise. O número representa o alcance geográfico e populacional das interrupções — não significa que todas essas pessoas estejam totalmente sem combustível.
O golpe mais recente atingiu o coração do sistema russo: a refinaria de Omsk, na Sibéria, considerada a maior do país e uma das principais responsáveis pelo abastecimento de gasolina.
Omsk: o ataque que elevou o alerta
A refinaria de Omsk foi atingida por drones no dia 6 de julho, em uma das ações ucranianas de maior alcance desde o começo da guerra.
Segundo fontes da indústria ouvidas pela Reuters, a unidade de destilação CDU-10, responsável por aproximadamente 38% da capacidade da refinaria, foi danificada. Outra unidade, a CDU-11, correspondente a cerca de 37% da capacidade, precisou ser interrompida após danos em conexões essenciais para seu funcionamento.
A instalação processou cerca de 22 milhões de toneladas de petróleo em 2024, produzindo aproximadamente 5 milhões de toneladas de gasolina e 8 milhões de toneladas de diesel.
O impacto foi imediato. Postos privados suspenderam vendas, filas se formaram durante a noite e moradores correram para abastecer. Embora autoridades locais tenham acusado parte da população de realizar compras por pânico, a paralisação atingiu justamente a maior produtora de gasolina do país.
O simbolismo é devastador para Moscou: a refinaria está localizada no interior da Sibéria, a quase 3 mil quilômetros das áreas controladas pela Ucrânia. A mensagem de Kiev é clara: a distância já não oferece a mesma proteção para a infraestrutura estratégica russa.
A crise já alcança quase toda a Rússia
Uma análise da CNN baseada em comunicados de governadores, prefeitos e veículos russos identificou problemas de abastecimento em quase todas as 83 regiões do país.
Mais de 50 regiões reconheceram oficialmente algum tipo de escassez. Em outras, há relatos de interrupções, fechamento temporário de postos ou limitações na quantidade vendida. Irkutsk e Transbaikal estão entre as localidades que adotaram níveis elevados de alerta.
A Crimeia, península anexada pela Rússia em 2014 e reconhecida internacionalmente como território ucraniano, enfrenta a situação mais grave. Em determinados períodos, a venda de gasolina para pessoas físicas foi completamente interrompida, preservando o estoque para serviços públicos e operações consideradas essenciais.
Em Anapa, importante destino turístico no Mar Negro, autoridades limitaram o abastecimento a 20 litros por veículo e convocaram patrulhas de cossacos para organizar filas, impedir conflitos e evitar o enchimento irregular de galões.
O deputado comunista Vyacheslav Markhayev afirmou que moradores da região de Zabaikalsky chegaram a enfrentar esperas de até 36 horas para comprar apenas 15 litros de gasolina. Ele classificou a situação não apenas como uma falha logística, mas como uma “falha de gestão do Estado”.
A deputada Nina Ostanina também questionou publicamente o governo e perguntou por que as autoridades não reconheciam que uma parcela expressiva das refinarias estava fora de operação.
Quanto da capacidade russa foi realmente atingida?
Os números variam porque cada levantamento utiliza uma metodologia diferente.
A Ucrânia afirma ter colocado fora de serviço 42,74% da capacidade total projetada de refino da Rússia. Segundo o Estado-Maior ucraniano, oito refinarias foram atingidas com sucesso em um único mês, além de dezenas de tanques de armazenamento. Esse percentual, porém, é uma estimativa apresentada por uma das partes envolvidas na guerra.
Chris Weafer, diretor da consultoria Macro-Advisory, estima que aproximadamente um terço da capacidade russa tenha sido interrompida ou danificada. Dados governamentais citados pela Associated Press apontam uma queda de aproximadamente 17% na produção de gasolina, para cerca de 850 mil barris diários.
Já análises recentes indicam que a produção de combustíveis ficou aproximadamente 20% abaixo da demanda interna. Em junho, a produção de derivados teria recuado 25% em comparação com períodos anteriores, justamente durante o pico das viagens de verão e da atividade agrícola.
Portanto, não existe um único percentual definitivo. O que já está amplamente confirmado é que a capacidade disponível caiu de maneira suficiente para provocar escassez, racionamento, inflação e importações emergenciais.
Putin tenta transmitir controle
Vladimir Putin reconheceu que a Rússia atravessa um “período difícil”, mas classificou a escassez como temporária e disse que o sistema energético permanece sólido.
O discurso busca impedir que a crise seja interpretada como sinal de fraqueza do Kremlin. Entretanto, o próprio governo anunciou medidas incompatíveis com uma situação normal.
O vice-primeiro-ministro Alexander Novak admitiu, durante reunião televisionada, que o cenário permanecia complexo e que as filas nos postos estavam causando preocupação entre os cidadãos. Moscou proibiu as exportações de diesel até 31 de julho de 2026, anunciou que começará a importar combustível e autorizou temporariamente a produção de gasolina e diesel com maior teor de enxofre.
A Rússia, tradicionalmente uma das maiores exportadoras de derivados de petróleo do mundo, também passou a buscar gasolina em países como Índia, Belarus e Cazaquistão.
É uma inversão desconfortável: o país que exporta petróleo está sendo obrigado a comprar combustível refinado para manter seus próprios veículos circulando.
Por que a Ucrânia escolheu as refinarias?
A estratégia ucraniana busca atingir três pontos sensíveis ao mesmo tempo: a logística militar, a arrecadação do governo russo e a rotina da população.
Petróleo e derivados financiam uma parcela relevante das receitas de Moscou. Além disso, tanques, caminhões, aviões, ferrovias e unidades militares dependem de uma cadeia contínua de abastecimento.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky classificou os ataques como “sanções de longo alcance” e afirmou que a pressão continuará enquanto Moscou rejeitar propostas para encerrar o conflito.
A Rússia, por sua vez, acusa a Ucrânia de atacar instalações civis e promete ampliar sua zona de segurança dentro do território ucraniano.
Para manter o contexto completo, Moscou também realiza há anos ataques contra usinas, redes elétricas e outras infraestruturas de energia da Ucrânia. A troca de ofensivas tornou o sistema energético um dos principais campos de batalha da guerra, com consequências econômicas e humanitárias para os dois lados.
O impacto pode chegar ao Brasil
A crise deixou de ser apenas um problema interno russo.
Brasil e Turquia foram os maiores compradores de diesel russo em junho e absorveram, juntos, pelo menos metade das cargas disponíveis. O Brasil aparece como o segundo maior importador do produto russo.
Com a suspensão das exportações, compradores brasileiros precisarão disputar cargas provenientes dos Estados Unidos, do Oriente Médio e da Índia. Isso não significa aumento automático e imediato nas bombas, mas reduz a oferta disponível e pode elevar custos de importação caso a proibição seja prolongada.
As margens internacionais do diesel na Europa ultrapassaram US$ 60 por barril após o anúncio russo. As exportações marítimas de diesel e gasóleo da Rússia já haviam caído 39% em junho na comparação mensal e 46% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Para o Brasil, o sinal de alerta envolve transportadoras, produtores rurais, empresas de logística e consumidores. O diesel movimenta boa parte da economia nacional, e qualquer pressão internacional prolongada tende a percorrer toda a cadeia de preços.
A guerra finalmente chegou ao cotidiano russo?
Durante anos, o Kremlin tentou preservar a percepção de normalidade nas grandes cidades e manter a guerra distante da rotina de boa parte da população.
As filas nos postos mudam essa narrativa.
Quando caminhões ficam parados, taxistas recusam viagens, turistas disputam combustível e famílias precisam planejar onde poderão abastecer, o conflito deixa de ser apenas uma notícia da televisão e passa a interferir diretamente na vida cotidiana.
A Rússia ainda possui petróleo, capacidade industrial e recursos suficientes para impedir um colapso imediato. Mas petróleo bruto dentro do solo não abastece automóveis. Ele precisa ser extraído, transportado, refinado e distribuído — e é exatamente essa cadeia que os drones ucranianos estão tentando romper.
O que pode acontecer agora?
O futuro da crise dependerá de uma corrida silenciosa entre quatro movimentos: a velocidade dos reparos russos, a capacidade ucraniana de repetir os ataques, o reforço das defesas antiaéreas e a quantidade de combustível que Moscou conseguirá importar.
Caso as refinarias retomem rapidamente a produção e os ataques diminuam, o abastecimento pode se estabilizar. Mas novas ofensivas contra instalações como Omsk, Moscou, NORSI, Saratov e TANECO podem prolongar o racionamento, elevar os preços e aumentar o desgaste político de Putin.
A Rússia continua sendo uma potência militar, energética e nuclear. Ainda assim, a crise revela uma verdade incômoda para qualquer governo: nenhuma demonstração de força no exterior consegue esconder por muito tempo filas, escassez e desorganização dentro de casa.
A ofensiva contra refinarias pode pressionar Rússia e Ucrânia a negociar ou apenas levar a guerra para um novo nível de escalada? Deixe sua opinião nos comentários, compartilhe esta matéria e acompanhe o PodemFoco News para entender como essa disputa pode afetar o preço do diesel e a economia brasileira.
Fontes: Diário 360; Reuters; Financial Times; Associated Press; CNN Brasil; Folha de S.Paulo; UOL; Deutsche Welle; The Guardian; The Moscow Times e El País.
Da Redação.
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